Diante de um dólar em alta e subindo ainda mais, se costuma afirmar que o Brasil não está mais atraente para o investidor estrangeiro, que retira seus dólares da economia brasileira e leva para países mais atraentes. Com menos dólares circulando, a tendência é que a cotação deles suba no curto prazo.

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O oposto também se aplica nessa situação: se o Brasil se torna atraente para um investidor estrangeiro, ele precisará trocar seus dólares por reais. Com mais dólares na economia, a tendência é que o dólar se mantenha em baixa ou estável. No entanto, o que torna um país mais atraente para investidor?

Além disso, quais estratégias o investidor estrangeiro coloca em prática na hora de investir seu dinheiro aqui? Esse é um tópico pouco explorado nos noticiários, mas que certamente possui uma excelente discussão.

O que torna um país atraente para negócios?

Os investidores estrangeiro geralmente consistem em pessoas mais qualificadas e investidores institucionais como hedge funds e family offices. Investidores pessoas-física são casos mais raros, embora também tenham participação no que chamamos de “Investimento estrangeiro na bolsa”.

Quando eles colocam dinheiro em outro país, estão buscando fazer uma diversificação de carteira ao explorar países que têm alto potencial de crescimento e desenvolvimento econômico nos próximos anos. Por isso, geralmente o alvo consiste em países subdesenvolvidos como Brasil, México, Índia e África do Sul, por exemplo.

Por serem países menos estáveis do que outros que já se desenvolveram, o investimento traz um maior grau de risco. Afinal, são países com moeda mais fraca e que encontram um cenário político e econômico que podem sofrer mudanças radicais em um curto espaço de tempo.

Por outro lado, os retornos potenciais também são muito mais elevados, pois há uma série de oportunidades a serem exploradas no mercado interno. Desta forma, o país precisa estar em um ponto ótimo de risco-retorno para que possa se tornar atraente para o investidor estrangeiro.

Por exemplo, são atraentes países se recuperando de uma crise, com um taxa de juros elevada, mas que não atrapalhe a economia e reflita alto risco fiscal. Todos esses fatores unidos a um governo relativamente estável também são desejáveis para um investidor estrangeiro.

Com os fatores definidos, quais são as estratégias favoritas dos investidores estrangeiros? Normalmente, eles compram ações de empresas brasileiras ou algum índice como o Ibovespa. Contudo, a estratégia favorita e mais utilizada é a de Carry Trade, por conta de um menor risco.

Carry Trade, a estratégia favorita

Carry Trade consiste em uma estratégia básica de arbitragem. Aliás, a arbitragem é um dos operacionais favoritos de investidores que possuem altas quantias de dinheiro. Através dessa operação, você pode pegar dinheiro emprestado a juros em um país e emprestar este dinheiro a juros em um país com uma taxa mais elevada.

carry trade
Carry Trade é uma das operações mais populares feitas por investidores estrangeiros.

A vantagem desta operação é que ela é ausente de risco direcional de mercado. Isso significa que o investidor não está apostando se as ações de um país vão subir ou cair. Ele está simplesmente explorando uma assimetria: comprando onde está barato e vendendo onde está caro, tudo isso de forma simultânea.

A arbitragem também pode ser feita com commodities, ações, criptomoedas e muitos outros ativos negociados em mercados. Basicamente, abre-se uma compra onde o ativo está barato e vende-se imediatamente onde está caro. Quando isso é feito em larga escala, o preço dos ativos tende a se igualar em mercados diferentes.

Contudo, vale lembrar que o Carry Trade não é uma operação sem risco. Um país pode quebrar e dar calote em seus títulos públicos, o que deixaria os investidores estrangeiros sem o seu dinheiro. Nesse caso, os riscos de liquidez e crédito são duas constantes desta operação. Outro risco a ser considerado também é o cambial.

Alguns investidores vão além e conduzem pesquisas sobre cenário político e indicadores econômicos, como uma forma de se manter à frente e evitar maiores surpresas. Quando algo que foge das previsões acontece, os estrangeiros se assustam e retiram seu dinheiro do país diante da maior percepção de risco.

O Brasil, até certo tempo, era um dos países favoritos para operações de Carry Trade. As nossas taxas de juros estavam na casa dos dois dígitos e o país, embora passando por dificuldades, compensava o risco da operação.

Contudo, nos últimos 2 anos, a taxa de juros vem caindo sistematicamente e o país não vem crescendo o esperado, o que o deixa pouco atrativo tanto para investimentos em bolsa quanto para operações de Carry Trade. Com isso, os investidores estrangeiros procuram outros países.

Gringos também gostam de ações e ETFs

Investidores estrangeiros também gostam de comprar ações de empresas que julgam como promissoras. Entretanto, a opção preferida do investidor estrangeiro é comprar um índice que reflete média ponderada das principais ações na bolsa brasileira (ETFs).

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Caso a economia cresça e se desenvolva, as empresas terão aumento de lucratividade e melhora nos fundamentos, também passando por uma valorização nas empresas listadas na bolsa. Muitos hedge funds compram ETFs na bolsa brasileira como forma de diversificação do portfólio do fundo.

Mas é preciso se lembrar que eles vêem países em desenvolvimento como um investimento de risco. Estes países sempre costumam sofrer com choques externos na economia. Pois, em uma situação de alto risco global, os investidores vendem seus investimentos mais arriscados e optam por manter dinheiro em caixa.

Choque do Coronavírus retira bilhões em investimento no Brasil

O Coronavírus foi um dos principais fatores para a retirada de investimentos estrangeiros no Brasil. Só em janeiro de 2020, os estrangeiros retiraram R$ 15 bilhões da bolsa brasileira, o maior volume desde a crise de 2008. Além disso, os próprios indicadores econômicos do Brasil já estavam desanimando os estrangeiros.

Além do Coronavírus, deve-se considerar o fato de que a economia brasileira não estava crescendo tão rápido quanto esperado, assim como o desemprego ainda se mantia elevado. As taxas de juros também caíram para o nível mais baixo da história e tornaram o país menos atrativo.

Como resultado da saída de investimentos, o dólar também sobe, diante de uma maior concepção de risco global. Só em 2020, o dólar subiu mais de 30% e a tendência ainda é de alta. O gráfico abaixo descreve a dinâmica: em azul está o dólar, em laranja está a bolsa. Diante de maior incerteza, o estrangeiro levou seus dólares embora.

dólar vs bolsa
Dólar valorizou enquanto a bolsa despencou. Fonte: TradingView

Hoje, o Brasil não é um país tão atrativo para investidores estrangeiros, mas eventualmente poderá ser, principalmente se a bolsa ficar muito barata e a economia reencontrar seu caminho de crescimento. No entanto, o cenário atual diz que no curto prazo, a tendência é que esse dinheiro demore para voltar.

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