Lucas Bassotto

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Economista, trader e especialista em conteúdo sobre economia, finanças e criptomoedas.

Você sabe o que é uma bolha financeira?

A humanidade testemunhou diferentes bolhas financeiras ao longo da história, que começam bem e terminam de uma forma trágica para a maioria dos participantes desse mercado. No entanto, nem todos sabem o que é uma bolha até testemunhar e se dar mal em uma.

Nesse post, você vai aprender o que é uma bolha especulativa, como ocorrem, suas principais fases e como detectá-las.

A bolha financeira

As bolhas são fenômenos que ocorrem com certa frequência na economia e diferentes tipos de mercados: imobiliário, de ações, tecnologia e qualquer outro que você pode imaginar.

Ela ocorre quando o preço de mercado de um ativo descola completamente de seu valor intrínseco. Nessas situações, o preço costuma ser muito maior do que o ativo realmente tem de valor.

O fenômeno recebe o nome de “bolha” porque o preço vai ficando inflado com o passar do tempo, em um movimento de alta cada vez mais agressivo. Contudo, há um momento em que esse movimento cessa e os preços começam a despencar, causando o “estouro” dessa bolha.

Como ocorrem?

A bolha financeira começa discretamente. Alguém descobre alguma coisa que é supostamente “nova” e revolucionária. Isso vai ganhando atenção de novos investidores e o preço vai subindo de forma gradual. 

Está criada a primeira fase da bolha. O preço e a história de novos milionários começam a chamar atenção na mídia. Com isso, as pessoas vão correndo para comprar mais daquele ativo que parece ser promissor, na esperança de ficarem ricas rapidamente.

Conforme mais pessoas vão comprando, mais o preço do ativo vai subindo e atraindo atenção de novas pessoa. Começa, portanto, uma corrida intensa para adquirir o ativo por parte do grande público. 

A maioria do mercado não se pergunta sobre o seu real valor, ou sobre sua utilidade. A lógica vigente é comprar o ativo e vendê-lo por um preço muito maior no futuro. 

Ou seja, há apenas uma especulação guiada pelo efeito manada, que é quando as pessoas apenas repetem o movimento que está sendo feito por todas as outras. Não há senso crítico ou questionamentos. 

Nesse caminho, pessoas mais radicais acabam vendendo casa, carro e tudo que possuem para poder investir nesse ativo. Como acabam especulando com tudo o que possuem, essas pessoas ficam vulneráveis a vieses comportamentais e são mais sensíveis a variações de preços.

Efeito manada

efeito manada
Uma semana na selva. Charge da The Economist conta como informações desencontradas podem desencadear em efeito manada.

Com o efeito manada, o preço do ativo sobe muito rápido. Porque cada vez mais pessoas estão comprando e poucas estão dispostas a vender. Ou seja, existe muita especulação para o momento e pouca reflexão. 

Esse processo vai ocorrendo repetidamente por um certo período. Não se sabe ao certo por quanto tempo isso pode ocorrer. A bolha imobiliária dos Estados Unidos, por exemplo, começou a ser formada em 2003 e estourou em 2008.

No entanto, a escalada de preços não dura para sempre. Quando as pessoas percebem que o preço está muito maior do que o ativo realmente vale, acontece uma grande venda. 

Essa grande venda desencadeia um efeito manada guiado pelo pânico. Assustadas, as pessoas passam a querer vender o ativo o mais rápido possível, derrubando os preços com a mesma velocidade que subiu. 

O resultado é quase sempre o mesmo: quem esperava ficar rico do dia para a noite acaba perdendo todo o dinheiro, ou grande parte dele. Isso acontece porque a pessoa vende tudo para investir e acaba levando muito prejuízo.

Como identificar uma bolha financeira

Uma bolha genérica pode ser divida em 4 fases: discrição, consciência, modismo e decepção. 

bolha financeira
Os principais estágios de uma bolha financeira. Fonte: Consulting Club

Na fase da discrição, poucas pessoas que possuem conhecimento sobre o potencial estão comprando o ativo. O preço começa a subir e atrair atenção. Geralmente, algum amigo te chama atenção sobre isso e você acaba não dando ouvidos.

Na fase da consciência, a valorização do ativo começa a aparecer em noticiários de nicho e atrair curiosos, que fazem novas compras. O ativo começa a subir de forma acelerada e os primeiros investidores começam a realizar seu lucro. 

Esse estágio marca a entrada de investidores profissionais. Também na fase da consciência, seu amigo ganhou muito dinheiro e você começa a comprar.

Na fase do modismo, o ativo começa a ganhar atenção da mídia geral: rádio, TV (Fantástico) e grandes sites de notícias. Nessa fase, você vê motorista de Uber, colega de academia e qualquer pessoa na rua falando sobre investimentos.

Isso atrai milhões de pessoas gananciosas (dumb money) que não possuem conhecimento sobre o que está sendo negociado, o objetivo é ganhar dinheiro. Esse é o estágio mais agressivo em movimentação de preços. É nessa hora que você deve vender.

A fase da Decepção começa quando os investidores profissionais começam a vender grandes quantidades para auferir lucro. As primeiras vendas provocam pânico e promovem um efeito manada que provoca uma grande queda de preço.

As bolhas mais recentes

Bolha das ponto com – ocorreu entre 1994 e 2000. Empresas ligadas a tecnologia e comunicação baseadas na internet passaram a valer bilhões. O  índice Nasdaq chegou a ficar cotado em 5 mil pontos no auge da especulação. A bolha estourou em 2001 e, poucos meses depois, o índice estava cotado em 2 mil pontos.

Bolha Imobiliária – ocorreu entre 2003 e 2008, desencadeando uma das maiores crises econômicas da história. Com a taxa de juros baixa, os norte-americanos compravam imóveis financiados e ofereciam estes imóveis para adquirir novos imóveis, na esperança de valorizar, praticando alavancagem. Em 2008, o preço dos imóveis despencou, os juros subiram e as pessoas não conseguiam pagar os financiamentos. Os bancos mais vulneráveis levaram calotes, foram à falência e contaminaram todo sistema financeiro na época.

Bolha do Alicate – As ações da Mundial S.A, fabricante de alicates e produtos de cozinha, chegaram a valorizar mais de 1600% em 2011. Em menos de 1 ano, as ações da empresa já estavam em seu menor valor da história. O presidente manipulou os balanços da empresa. Quando o mercado percebeu, vendeu em massa as ações da Mundial.

Bolha financeira não é pirâmide!

É importante não confundir uma bolha financeira com pirâmides e esquemas ponzi. A bolhas financeira consiste em pessoas comprando um ativo com muita intensidade e levando ele a um preço muito maior do que seu valor intrínseco. No caso, só há especulação.

Os esquemas ponzi acontecem quando uma pessoa má intencionada convence as outras a colocar dinheiro em uma aplicação, prometendo ganhos fixos diários, semanais ou mensais que são muito acima da média do mercado. Os esquemas normalmente tentam maquiar o golpe com algum produto ou serviço de fachada.

Por outro lado, as bolhas financeiras consistem apenas na compra exagerada de um ativo, causando sua sobrevalorização. Não há nenhuma promessa de ganho elevado. Porque o mercado pode variar com a especulação.

O efeito contágio da bolha financeira

Um fato muito interessante, pouco explorado, é que ativos da mesma classe, ou que sejam semelhantes, também passam por um período de grande valorização. Um exemplo disso foi na Bolha das Tulipas na Holanda durante o século XVIII.

Um vírus, de vez em quando, contaminava algumas Tulipas e as deixavam mais belas. Tanto é que as Tulipas contaminadas recebiam o nome de Samper Augustus e custavam mais de R$ 800 mil cada. Era um artigo de luxo, voltado apenas para os mais ricos em Amsterdã, porque custava o equivalente a uma casa.

bolha financeira das tulipas
Preço das Tulipas entre 1636 e 1637. Fonte: Veertu

Nem todas as Tulipas conseguiam ser contaminadas. Mas ainda assim, a especulação tomou conta do ramo de floricultura. Flores e Tulipas, de maneira geral, presenciaram um grande aumento de preços. 

Afinal, R$ 800 mil em uma Samper Augustus faria uma tulipa qualquer de R$ 2 mil parecer bem em conta. Foi exatamente o que aconteceu: as pessoas passaram a comprar outros tipos de Tulipa para especular.

As Tulipas só floresciam na primavera, mas diante de uma procura tão alta, as floriculturas passaram a vender apenas o broto. Mas nem todo mundo levava o broto para casa. Era feito um contrato entre comprador e floricultura atestando o direito sobre a Tulipa.

Diante do aquecimento desse mercado, esses contratos passaram a ser negociados em um valor cada vez maior. As pessoas ganhavam dinheiro rápido e fácil, até o estouro da bolha, que é quando a maioria acaba perdendo muito dinheiro.

Bitcoin é bolha?

Em 2017, testemunhamos a terceira mania do Bitcoin, embora a mais recente tenha sido a mais expressiva. O Bitcoin já passou por três ciclos de bolha: 2011, 2013 e 2017. Nessas ocasiões, o preço sempre descolava de seu real valor para o momento: subia muito rápido e logo depois, caia 80, 90%.

valorização do bitcoin
A valorização do Bitcoin de 2016 a 2017. Fonte: TradingView.

O fato é que ele já esteve em períodos de bolha, mas isso não significa que o ativo não tenha nenhum valor ou utilidade. Se o Bitcoin é bolha ou não, só o tempo dirá. No entanto, alguns ativos da mesma classe do Bitcoin foram grandes bolhas especulativas: as altcoins.

Leia também: Qual é o lastro do Bitcoin? Conheça seus fundamentos

O Bitcoin valorizou 2000% de janeiro a dezembro de 2017. Quem colocou R$ 1.000, tirou R$ 20.000 em apenas 12 meses. Contudo, essa nem é a valorização mais impressionante. A XRP (ativo da Ripple)  valorizou 1300% em apenas duas semanas, quando subiu de US$ 0,22 para US$ 3,24 e a NANO valorizou 17.775% em apenas 1 mês, subindo de US$ 0,20 para US$ 35! 

criptomoeda nano
A hiper-valorização da criptomoeda Nano. Fonte: CoinMarketCap.

Esse movimento pôde ser visto de forma generalizada em todo mercado de criptomoedas. Uma mania de Bitcoin acabou contagiando todo o setor, gerando empolgação e ganância nos investidores menos experientes. Hoje, XRP e Nano apresentam mais de 95% de perda em relação ao seu preço máximo.

Muitas bolhas financeiras ainda vão acontecer

O economista F.A Hayek defende em sua teoria o fato de que conhecimento humano é imperfeito e disperso na sociedade, sendo impossível que as pessoas saibam de tudo. Portanto, sempre estaremos sujeitos a assimetrias de informação e erros na percepção do valor.

Portanto, é provável que ainda possamos nos deparar com outras situações de bolhas financeiras. Porque sempre estaremos sujeitos a erros de avaliação e efeitos manada. 

Diante disso, é importante a constante reflexão e reconhecer as características e os principais estágios de uma bolha. Esse conhecimento evita que você perca dinheiro com uma.

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