Lucas Bassotto

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Economista, trader e especialista em conteúdo sobre economia, finanças e criptomoedas.

As crises econômicas podem acontecer de diferentes formas. Ela pode ser o resultado de um choque externo (Covid-19, Guerras e Corrupção) ou de problemas estruturais na economia que causam o chamado ciclo econômico que provocam grandes expansões e retrações na economia.

Naturalmente, todos os setores da economia são afetados, mas há claramente uma tendência que mostra que a indústria é que mais sofre durante crises e ciclos econômicos. Portanto, não é muito raro ver indústrias rapidamente demitirem trabalhadores quando encaram estas situações.

Os efeitos econômicos da Covid-19

Mais de 30% das empresas brasileiras em todos os setores perceberam o impacto da pandemia da covid-19 em seus negócios em março, segundo pesquisa divulgada nesta quarta-feira (10 de junho) pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). O ramo mais atingido até agora é a indústria, no qual 43% das companhias relataram que a atividade

Em relação aos próximos meses, 15 dos 19 ramos pesquisados esperam ser mais impactados pela crise. Os fabricantes em que a parcela de empresas com essa percepção é mais alta são os de máquinas e materiais elétricos (91,5%); petróleo e biocombustíveis (90,5%); limpeza e perfumaria (90,2%); informática e eletrônicos (89,4%); couros e calçados (85,9%)

Segmentos com maiores percentuais foram veículos, motos e peças (46,4%), material para construção (39,9%) e tecidos, calçados e vestuário (37,2%)

Mas o questionamento aqui é: por que os setores industriais sofrem mais que os outros em crises econômicas? A resposta é bem simples: indústrias tendem a expandir mais que o setores de bens e serviços quando a economia está crescendo. Agora, por que as indústrias expandem tanto?

Indústrias respondem mais rápido a estímulos

As indústrias são mais sensíveis a estímulos econômicos do governo. Este estímulo geralmente vem na forma de crédito. Para criar crédito, o Banco Central corta a taxa de juros da economia e também reduz exigências de segurança que os bancos comerciais devem seguir.

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Isso ajuda a criar mais crédito na economia. Ou seja, o governo cria facilidade para o dinheiro circular na economia quando ele acha que o país precisa crescer. Diante do crédito mais fácil, as indústrias expandem suas linhas de produção, adotando processos e cadeias mais longas com objetivo de criar economias de escala no futuro.

selic vs industria
Fonte: Elaboração própria com dados do Ipea

Nessa expansão, contrata-se mais trabalhadores, os salários aumentam e há um aquecimento na indústria de bens de capital (fornecedor de maquinário para indústrias), que por sua vez também expandem para dar conta deste aumento de demanda. 

Formação bruta de capital entre 2008 e 2019

formação bruta de capital
Fonte: Elaboração própria com dados do Ipea

O problema deste processo são as distorções causadas quando a economia cresce baseada no aumento de crédito e não por aumento de produtividade e poupança. Diante disso, as indústrias estão voltando seu processo produtivo para o longo prazo porque acreditam que estes fundos são de fato poupados.

Com isso, há um descompasso entre consumo e investimento. Prontamente esse novo dinheiro de crédito irá percorrer todas as cadeias do processo de produção, afetando desde os tomadores de empréstimo até os fatores de produção, salários, aluguéis e juros.

A inflação que engana muita gente

A inflação começa a se tornar notável diante de um aumento de demanda de consumo no curto prazo. Os empresários acreditam que com o aumento dos preços, a demanda por seus produtos está subindo, o que os faz concluir que precisam investir mais. 

No entanto, os estoques de bens de capital não crescem no ritmo dos estoques dos bens de consumo. A competição de empresários por bens de capital leva essa indústria a registrar maiores níveis de inflação. 

Essa competição também tende a diminuir a liquidez do mercado de crédito, tornando as taxas de juros mais onerosas a cada nova rodada de empréstimo, o que acaba criando uma situação em que capitalistas e consumidores disputam crédito.

Ou seja, a inflação começa com a expansão na indústria de bens de capital e percorre toda cadeia produtiva até chegar aos bens de consumo mais próximos do cliente final, isto é, o varejo. Isso pode ser esquematizado da seguinte forma: o varejo demanda do atacadista, que por sua vez demanda da indústria, que por sua vez demanda da indústria de bens de capital.

O problema é que as indústrias de bens de capital são um setor que apresenta maior volatilidade nos ciclos econômicos: indústrias expandem muito rápido e também encolhem na mesma velocidade. 

Índice industrial nas duas crises mais recentes

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Fonte: TradingView

Diante do problema do descompasso entre consumo e investimento, as indústrias de bens de capital irão descobrir que todo o seu investimento foi errôneo porque o crédito fácil uma hora acaba e as indústrias não completam a expansão. 

Com isso, os investimentos se revelam desperdícios, e esses maus investimentos devem ser liquidados. Em situações normais, essa liquidação deveria ocorrer rapidamente. Com isso, muitas indústrias demitem, fecham unidades e vendem seus maquinários, retraindo na mesma velocidade que expandiu.

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