Lucas Bassotto

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Economista, trader e especialista em conteúdo sobre economia, finanças e criptomoedas.

Recentemente não faltaram notícias falando sobre países adotando taxas de juros negativas para incentivar a economia em tempos de Covid-19. Algumas pessoas apoiam esta medida, outras acreditam que isso jamais deveria ser feito. No entanto, poucos jornais explicam o racional da taxa de juros negativos.

O fato é que o Banco Central do Japão já trabalha com taxas de juros negativas, na Europa, alguns países também fazem o mesmo. Mas a questão é: por que isso está sendo feito em uma escala com a qual nunca vimos antes?

Antes de entender as consequências de uma taxa de juros negativa, é preciso entender essencialmente o que são e para que existem os juros. Sem esse entendimento, será praticamente impossível compreender o cenário que estamos vivendo e as razões para qual bancos centrais estão adotando essas medidas.

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O que é a taxa de juros?

Teoricamente, a taxa de juros reflete o quanto uma população prefere abrir mão de consumir produtos hoje para poupar o dinheiro e consumir mais produtos no futuro. Então, se uma população poupa mais do que gasta, haverá mais dinheiro poupado nos bancos e, portanto, menor será a taxa de juros.

Por outro lado, o dinheiro ficaria mais escasso se as pessoas poupassem menos. Logo, a taxa de juros seria maior. Por isso, muitas pessoas se referem à taxa de juros como o “preço do dinheiro”. Ou seja, a taxa de juros reflete o quanto custaria adiantar um consumo através de empréstimo sem que eu tenha este dinheiro em mãos hoje.

Este adiantamento é feito através do empréstimo. Ou seja, quem quer adiantar seu consumo precisa pagar um prêmio para aqueles que adiaram. E é para isso que servem as taxas de juros: coordenar a oferta e a demanda de produtos com o passar do tempo. 

Hoje, essa taxa de juros é determinada diretamente pelos Bancos Centrais e se aplicam à economia de todo o país, mas uma hora as taxas de juros que os governos definem acabam convergindo para o número real. 

Por que os governos estão sempre mudando a taxa de juros?

Conforme dito acima, hoje a taxa de juros é entendida como o “preço do dinheiro” por muitos economistas. Se os bancos centrais cortam juros, o dinheiro fica mais barato e empréstimos se tornam mais viáveis. Empresários e trabalhadores podem pegar empréstimos para consumir mais e fazer a economia crescer.

A lógica oposta também pode ser aplicada: quando um banco aumenta a taxa de juros, o dinheiro se torna mais caro e empréstimos ficam menos acessíveis. Com isso, empresários e trabalhadores tendem a consumir menos do que fariam caso o empréstimo fosse mais viável. 

Um dos papéis do Banco Central é controlar a inflação. Por isso, quando ela está em alta e saindo do controle, as taxas de juros sobem para reduzir a atividade econômica e controlar a súbita elevação de preços. Por outro lado, se a economia do país está precisando crescer em emprego e renda, o Banco Central irá cortar juros para facilitar o empréstimo e o consumo. 

No entanto, existem variáveis que os Bancos Centrais precisam estar atentos quando estão cortando ou aumentando a taxa de juros, são elas: câmbio, inflação e crescimento. Se os cortes forem muito abruptos, estas três variáveis poderão se tornar um problema. 

Por exemplo, se um país subdesenvolvido fizer um corte abrupto na taxa de juros, como o Brasil fez no último ano, poderá ter problemas com câmbio e se a economia estiver em franco crescimento, a inflação também começará a incomodar. 

Preço do Dólar no Brasil

dólar brasil

De forma oposta, se acontecer um abrupto aumento da taxa de juros, o Banco Central estará sacrificando a dinâmica econômica enquanto favorece o câmbio. Ou seja, os bancos centrais precisam lidar com o trilema impossível: o Modelo de Mundel Fleming.

Qual é o objetivo de taxas de juros negativas?

A economia moderna, especialmente no século 21, entrou em um novo paradigma: as principais economias se desenvolveram e também muita riqueza foi criada, levando a um grande acúmulo de capital nos países mais desenvolvidos. 

Com isso, aconteceu uma tendência na queda da taxa de juros em países com uma grande acumulação de capital. No entanto, a crise de 2008 mudou completamente o paradigma econômico estabelecido até então. O sistema financeiro mundial quase colapsou durante a crise e os bancos centrais precisaram adotar medidas heterodoxas para salvá-lo.

Taxas de juros nas principais economias do mundo

taxas de juros negativas
Taxas de juros negativas no Reino Unido, Suécia, Japão, Zona do Euro, Dinamarca e Suíça.

Entre essas medidas estavam: compra de ativos podres de outros bancos e principalmente a redução na taxa de juros. Este programa ficou conhecido como Quantitative Easing, ou “Afrouxamento Quantitativo”. 

Através dele, os bancos centrais injetariam liquidez na economia para evitar um aprofundamento da recessão.

Balanço de ativos sob posse do FED (Banco Central dos EUA)

balanço do fed
Fonte: FED

Ou seja, uma taxa de juros negativa é vista como uma ferramenta para estimular as economias em situações de estresse, como o caso da Covid-19. No entanto, nenhum país adota juros negativos do dia para a noite. Ela é adotada em países que já possuem juros naturalmente baixos ou próximos de zero.

O Japão, por exemplo, é um país que tem uma população extremamente poupadora, e que mesmo assim convive com uma taxa de juros negativa há pelo menos 20 anos.

Qual o limite de cortar a taxa de juros?

Vale ressaltar que a política de corte de juros por ela mesma não é economicamente sustentável. Se fosse assim, era só cortar as taxas de juros indefinidamente, correto? O problema é que chega uma hora em que a economia não reage mesmo que se corte juros. 

O país entra na chamada “Armadilha de Liquidez”, onde a atividade econômica não tem sensibilidade aos cortes de juros. Esse é um dos maiores problemas que a economia japonesa tem enfrentado nas últimas décadas.

Além do risco cambial e inflacionário mencionado acima, também há outro que é ainda mais destrutivo no longo prazo: os ciclos econômicos. Lembra que eu disse que a taxa de juros tem o papel de coordenar consumo e produção? Pois é, se ela fugir muito da “taxa real”, haverá distorções em toda economia.

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De maneira resumida, se o governo mantiver por muito tempo a taxa de juros menor do que ela naturalmente deveria estar, produção e consumo tenderão a apresentar um descolamento entre ambos, o que resultaria em uma grande depressão econômica, como ocorrida justamente nos anos de 1929 e 2008.

Portanto, a taxa de juros é um dos principais motores da economia. Através dela, os Bancos Centrais injetam ou retiram dinheiro do sistema conforme seus interesses. Contudo, é preciso muito cuidado na execução destas políticas econômicas, que se feitas em excesso, podem gerar consequências gravíssimas tanto de curto prazo (câmbio e inflação), quanto de longo prazo (ciclos econômicos).

Taxas de juros negativas vão resultar em crise econômica nos próximos anos?

O Covid-19 vai ter um custo econômico gigantesco para a economia mundial. Muitos países certamente vão encarar recessões, que serão amenizadas pelos bancos centrais. No entanto, esta crise está sendo o resultado de um choque externo, o que torna a recuperação menos complexa.

A crise econômica causada pelo Covid-19 é muito diferente de um ciclo que resulta em depressão econômica, bem mais difícil de recuperar e também mais duradouro. A economia brasileira, por exemplo, passou por um ciclo que resultou em uma das maiores depressões da história e estamos ainda em recuperação, que será atrasada pelo Covid-19.

A economia norte-americana e europeia levaram pelo menos 8 anos para se recuperarem completamente. Em um ciclo econômico, a economia precisa se readequar à realidade e se desintoxicar do excesso de liquidez. Este processo é um remédio amargo e demorado, mas necessário para colocar a economia novamente nos eixos.

Agora, respondendo à pergunta: os bancos centrais estão com menos “wiggle room”. Estão perdendo espaço para margem de manobra a cada corte na taxa de juros e inevitavelmente o ajuste econômico precisará ser feito pelo mercado. Se a economia mundial entrar em uma “armadilha de liquidez”, os bancos centrais vão precisar recorrer a políticas de “pacotes fiscais”.

O problema é que pacotes fiscais quando feitos em excesso levam a um processo de inflação que se retroalimenta. E quando a inflação acelerar, acabará definitivamente qualquer margem de manobra e inevitavelmente o ciclo econômico começará. O problema é: quando esta margem vai acabar? Ninguém sabe. Precisamos observar com olhos atentos.

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