João Vitor

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Trabalha como consultor financeiro, é estudante de Engenharia Química pela Unesp e escreve sobre temas relacionados a economia, finanças e investimento.

No mercado financeiro, o ouro geralmente tem espaço na carteira de muitos investidores. Assim como o dólar e criptomoedas, o ouro acaba tendo em grande parte dos casos um papel de proteção de capital.

E por que ele teria esse papel de proteção? Ele consegue exercer esse papel porque se trata de um ativo escasso, ou seja, não é possível emitir ouro tanto quanto se emite dinheiro na economia.

Sendo assim, ele possui valor intrínseco, então além de proteção, aliado a sua escassez, ele tem também esse papel de possível valorização ao longo do tempo, através dos princípios de oferta e demanda.

Ao longo da história, o ouro teve grande participação comercial. Em alguns momentos, passou por milênios, ele foi a moeda oficial em alguns países, antes das mudanças que tornaram oficiais as moedas criadas pelo próprio Estado.

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Além de participação em investimentos, o ouro também é material para fabricação de diversos produtos, como joias e eletrônicos, por exemplo. Geralmente, o ouro também tem o papel de status social, tendo essa relação de poder dentro da sociedade e da cultura do consumo.

Ele tem vivido grande valorização ao longo do tempo. Apenas no primeiro semestre de 2020, em meio a pandemia, o ouro teve um crescimento de preço superior a 17%. Vejamos sua evolução no preço (em reais) ao longo dos últimos anos, segundo o site do Bullion Rates.

quando de ouro ainda resta

Essa valorização tem grande relação com a oferta e demanda do ouro. Ao passo que a demanda por ouro cresce, encontrar novas reservas de ouro e formas de aumentar a quantidade para utilização tem sido cada vez mais difíceis ao longo do tempo, ou seja, a demanda não tem crescido na mesma velocidade que a oferta, vindo a tona o crescimento exponencial do preço do ouro que temos visto.

Mas pra essa quantidade aumentar, é preciso crescer nossa capacidade de exploração e mineração de novas fontes. Mas afinal, quanto ainda temos de ouro no mundo pra ser extraído?

Muitos especialistas acreditam que estamos chegando no nível máximo de exploração de novas fontes economicamente viáveis, ou seja, na nossa maior produção possível. Ao passo que vamos nos aproximando da escassez de novas fontes, essa própria produção vai tender a cair ao longo dos anos.

Com a produção caindo, o ouro possuiria um menor crescimento de recursos disponíveis pelo mercado, e a longo prazo podendo tornar a quantia de ouro existente numa quantidade mais constante, frente a demanda que só cresce.

Isso poderia elevar de forma seu preço de forma exorbitante, com taxas de crescimento nunca antes vistas desde que se começou a ter uma ideia melhor de qual seria seu valor real de mercado. 

Obviamente isso não acontece da noite pro dia. Essa queda de crescimento na produção, tornando-o cada vez mais escasso, é uma questão de estudos que teriam consequências de décadas a frente. Porém desde 2008, é a primeira vez que a produção de ouro caiu 1% ao ano, como ocorreu em 2019.

Só no mês de agosto desse ano de 2020, o ouro atingiu o preço de US$ 2000,00 a cada 28,4 gramas (equivalente a uma onça), o maior cotação já registrada na história, isso sem corrigir pela inflação.

Segundo estudo geológico dos EUA, há cerca de 50 mil toneladas de ouro em reserva para serem exploradas, onde uma parte delas ainda é economicamente inviável com as tecnologias disponíveis até o momento. Num cenário mundial é muito difícil prever uma quantidade exata de ouro a ser explorada, já que diversos países, sequer fazem esse tipo levantamento de forma mais precisa.

O gráfico a seguir mostra a quantidade atual de 10 países com mais reservas de ouro do mundo, com dados do Trading Economics, atualizados até junho de 2020.

reservas de ouro por país

Talvez, se pensarmos em um avanço e evolução nas formas de exploração, poderíamos pensar em um maior aproveitamento dessa reserva, embora não se possa prever o quanto isso avançaria ainda. 

Essa ideia, torna-se cada vez mais possível, ao passo que processos de otimização, auxiliados por inteligência artificial e da robótica tem grande investimento e buscas crescentes da indústria para sua evolução.

Algumas opiniões a respeito de onde vamos chegar na produção de ouro, ainda são um pouco controversas para especialistas. Como citamos, uma parte deles tem citado justamente o ponto que já falamos, que é o da possível diminuição da produção com o tempo e que já estamos atingindo o máximo que podemos explorar.

Outros, como é o caso de Ross Norman, da Metals Daily diz que há uma provável tendência da produção do ouro cair, mas que não acredita que seja uma queda tão drástica assim. 

A porta-voz do Conselho Mundial do Ouro, Hannah Brandstaetter, diz que sugerir que a produção do ouro atingiu seu pico pode ser um tanto quanto prematuro. Uma questão é certa, independente das diferenças entre as opiniões postas, ninguém nega a possibilidade de escassez futura, variando apenas na forma e o tempo em que se enxerga isso.

A China atualmente tem a maior produção de ouro do mundo, com aproximadamente 11% do total. Na América Latina, a mina com maior produção de ouro ocorre na República Dominicana, tendo produzido mais de 30 toneladas só em 2018. Ainda assim, nessa mina, a produção tem visto uma desaceleração, segundo os próprios responsáveis.

Vejamos uma comparação entre os 10 maiores produtores de ouro no mundo em 2018, segundo dados do Instituto Minere:

maiores produtores de ouro do mundo

Vale ressaltar que não necessariamente, os países com maior produção de ouro no mundo são equivalentes aos países com maior reserva, como vimos. Pode-se perceber, que muitos países desenvolvidos, principalmente os da zona do euro, estão entre os que têm as maiores reservas, mas muitos deles não são os que mais produzem, uma vez que é mais conveniente em alguns casos a exportação do que a própria produção para alguns deles.

Explorar menos suas próprias reservas no momento, pode ser uma importante estratégia desses países para que possam utilizar-se disso quando o ouro realmente aumentar severamente sua escassez. Poder exportar uma boa parte de maneira um pouco mais econômica de países menos desenvolvidos talvez seja mais interessante até então.

Outra possível explicação para isso, pode ser as condições dessas reservas menos exploradas. As características e particularidades de minas de alguns países tornam um pouco menos compensatório a própria extração do que a exportação em si. Ter reservas de ouro não obrigatoriamente implica na possibilidade de utilização desses recursos.

O fato que se tem é que com esse esgotamento cada vez maior de fontes aos quais já são exploradas há anos, algumas em países pobres como observado, surgirá uma necessidade de ir atrás das fontes ainda não utilizadas, ou até mesmo estudar formas de alcançar aquelas que ainda não são possíveis de se fazer isso.

Sendo assim, também vai exigir das mineradores cada vez mais dinheiro investido em máquinas, mecanismos novos de extração, além de mão de obra mais qualificada para isso. 

Ou seja, o custo total para as explorações de ouro, que já são altíssimas, vão ficar cada vez maiores, ao passo que a necessidade do mercado de comprar mais ouro dessas mineradoras fica cada maior também. Isso pode resultar em uma falta de estímulo para investimentos comparado ao que se investia antes, frente a maior dificuldade de lucro imediato. 

Vale ressaltar que temos 40% das reservas de ouro que estão no subsolo e estas demandam ainda mais investimentos e tecnologia. Entender que o encarecimento dos serviços relacionadas ao ouro e o quanto temos a explorar, são fundamentais para entender como o preço vai se comportar no futuro. 

Logo, toda essa demanda mais alta por um poderio tecnológico é uma tendência do mercado de exploração de recursos naturais e não só do ouro em si, o que pode trazer questões relevantes sobre viabilidade e compensação desses investimentos dessas mineradoras mais a frente, assim como de parcerias de outras grandes empresas.

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