No final de novembro, milhões de brasileiros foram surpreendidos com o aumento do preço da carne em açougues e mercados. O assunto virou pauta dos jornais e de portais na internet. A pergunta que todos estão tentando responder é: por que a carne ficou mais cara?

Contudo, nem todos os brasileiros possuem conhecimento na área, o que torna difícil a compreensão deste fenômeno. 

Oferta e demanda

A carne é um produto, que como outro qualquer, está sujeito à lei básica da economia: oferta e demanda. Do lado da oferta estão produtores, distribuidores e comerciantes. Do lado da demanda estão os consumidores (você, eu e restaurantes).

Se há mais pessoas comprando do que vendendo, o preço da carne irá subir. Se o contrário acontecer, o preço da carne bovina nos mercados e açougues irá cair. 

Além disso, tanto o lado da oferta (produtores) quando a demanda (consumidores) estão sujeitos a choques externos (eventos imprevisíveis) que são impossíveis de prever ou controlar.

Esses choques provocam grandes oscilações no preço. Por exemplo, um choque de oferta pode ser um grave problema na principal produtora de carne bovina, tornando-a mais difícil de encontrar no mercado, isto é, mais escassa.

Os preços são sinalizadores da escassez de um produto. Se o preço está subindo, quer dizer que ele está se tornando mais escasso naquele momento. Por outro lado, se o preço de um determinado produto estiver caindo, quer dizer que ele estará mais abundante no mercado.

O que provocou uma alta no preço da carne?

A alta do preço da carne no Brasil está acontecendo pela união de diversos fatores econômicos. No entanto, a alta demanda dos chineses é o principal motivo. No entanto, o crescimento da economia brasileira também é um dos fatores a considerar.

A economia brasileira finalmente começa a apresentar melhoras nos seus indicadores. É possível observar uma recuperação econômica em 2019, com previsão de crescimento acima de 2% para o próximo ano.

Estamos no começo do ciclo econômico, nossa economia acabou de sair de um estágio grave de recessão. 

ciclo econômico brasil
Nossa fase do Ciclo Econômico

Novos empregos estão sendo criados, as taxas de juros estão facilitando a obtenção de crédito para empresas e pessoas, com uma tendência é que a renda da população aumente, o que levará a um aumento no consumo.

Por consequência, a preferência de consumo população acaba mudando. Com uma renda menor, as famílias procuram substitutos da carne bovina, como frango, peixe, carne suína e ovos.

Com o aumento da renda, mais brasileiros passam a consumir carne bovina, o que aquece a demanda e os preços.

Também é preciso lembrar do início da “entressafra” do boi. A entressafra é um período em que determinado produto agropecuário deixa de ser produzido, o que provoca aumento do seu preço no mercado

No mercado bovino, esse período começa entre junho e julho o seu pico ocorre em outubro. Os períodos de safra começam em janeiro e vão até maio, quando atingem o seu pico.

O fator chinês

Metade dos rebanhos suínos foi abatida por conta de um surto de gripe suína, o que provocou um choque de oferta do lado chinês. Diante disso, os chineses passaram a importar alternativas proteicas como carne bovina e de aves.

De janeiro a outubro de 2019, o Brasil exportou 3,86 milhões de toneladas de carne suína, bovina e de frango para a China, o que representa um aumento de 44% em relação ao mesmo período de 2018. 

A China provocou um choque de demanda do lado brasileiro. Os chineses importaram nossa carne em peso, provocando uma redução da oferta de carne brasileira em nosso mercado. Como consequência, os preços subiram rapidamente para se adaptar a essa realidade.

Um fator que está sendo pouco considerado é o longo ciclo do abate do boi: que leva no mínimo 5 anos no pasto. Em comparação, o porco leva 100 dias na engorda, enquanto o frango já pode ser abatido com 45 dias.

Por que o governo não tabela o preço da carne?

Tabelamento de preços não funciona e nunca funcionou em lugar algum. Isso acontece porque os preços são sinalizadores de escassez. 

Ao interferir nesse sinal, o governo estará provocando distorções no estoque de carne, o que leva a desabastecimento e filas em açougues e mercados, além da criação de mercados negros que vendem carne a um valor acima do preço tabelado (ágio).

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Filas nos mercados nos anos 80, durante congelamento de preços

O tabelamento já foi adotado pelo ex-presidente José Sarney durante os anos 80 no Brasil. Sua política resultou nos resultados mencionados acima: mercado negro de alimentos, filas e desabastecimento nos estoques do mercado.

Uma das situações mais emblemáticas se deu quando a Polícia Federal foi ordenada a perseguir gado no pasto, de forma a garantir o “preço justo” para a população brasileira. 

Também havia o programa “Fiscais do Sarney”, no qual o povo deveria denunciar mercados e comerciantes que vendessem acima do preço tabelado. Esse programa resultou em sequestros e violência com comerciantes.

fiscais do sarney
Programa “Fiscais do Sarney” incentivava população a denunciar quem vendesse fora da tabela de preços.

Os acontecimentos mencionados acima são suficientes para explicar o motivo de o governo não tabelar ou proibir o aumento de preços. 

O que pode ser feito agora?

O preço do Boi Gordo, negociado nas Bolsas de Valores, apresentou uma subida acelerada a partir de novembro, com uma valorização de 14,22%. Contudo, o preço já estava subindo consistentemente desde a metade do ano.

preço da carneO Boi Gordo é um contrato futuro negociado na Bolsa de Valores. Os produtores de carne bovina utilizam contratos futuros para proteger seus lucros e diminuir o risco da oscilação do preço. Através destes contratos, é possível vender a produção de forma antecipada.

Portanto, o contrato de Boi Gordo possui ampla influência na carne que chega ao açougue e ao mercado. Mesmo com a recente alta, o preço está do Boi Gordo está voltando a cair. 

Apesar disso, a tendência é que o preço da carne bovina dificilmente volte ao patamar de seis meses atrás, mesmo que os chineses superem a dificuldade e diminuam a importação da nossa carne.

A economia brasileira está entrando em um ciclo de expansão, o que irá aquecer o mercado interno, podendo gerar inflação nos próximos anos. É melhor se acostumar com a alta do preço, ou procurar alternativas para diminuir o custo.

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