Os perigos da segurança da Renda Fixa

Com a tendência de alta nos juros dada pelo ciclo iniciado em março por meio do Banco Central, muito se discute sobre um possível renascimento da renda fixa. Cada vez mais o assunto vem retornando à pauta, uma vez que, em termos práticos, a renda fixa é considerada um dos investimentos mais seguros em comparação com o mercado de renda variável.

Entretanto, questiono você, caro leitor, se essa afirmação estaria correta. Poderíamos estar completamente seguros ao alocar todo o nosso capital em renda fixa?

Analisando o cenário 

Respondendo a pergunta acima, a resposta é não. Na realidade, os investimentos em renda fixa podem ser bastante arriscados, por essa razão, o investidor deve avaliar suas opções com cautela.

Importante frisar que quando se trata de ativos de renda fixa, estamos falando do risco de crédito, que nada mais  é do que o risco de uma instituição não honrar com seus compromissos, ou seja, você não reaver o dinheiro aplicado pelo investidor. 

Ocorrer um ‘Default’, ou seja, quando o Governo não é capaz de pagar a quantia prevista em contrato, pode parecer assustador, não?! No entanto, para aqueles que não querem passar por essa tormenta, existem investimentos de renda fixa com garantia, e até mesmo, aqueles que são cobertos e garantidos pelo próprio Governo Federal.

Veja também: Entenda a ata do Copom e a postura Dovish do Banco central

Títulos públicos e privados 

É importante entender que os papéis de renda fixa são em geral de dois tipos, públicos ou privados. Os títulos públicos, que podem ser adquiridos, através do Tesouro Direto, no qual são emitidos pelo Governo com a finalidade de financiar o seu déficit e eventuais investimentos na área de saúde, educação e etc. 

Neste caso, são considerados investimentos de menor risco, pois possuem o risco soberano ou risco país, que na prática, é como se o investidor estivesse literalmente emprestando para o Governo.

Já os privados, são emitidos por companhias privadas, como bancos e empresas não financeiras. No caso dos títulos privados, deve-se observar a capacidade da contraparte em honrar seus compromissos. No caso de alguns investimentos há cobertura do FGC (Fundo garantidor de crédito), que assegura um máximo de 250 mil por CPF ou CNPJ, em cada instituição, limitado ao teto de R$ 1 milhão.

Cobertura do FGC 

Conforme dito anteriormente, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) garante o pagamento do dinheiro investido em alguns títulos bancários caso a instituição financeira tenha problemas para honrar compromissos. Sendo eles: 

  1. Depósitos à vista;
  2. Poupança;
  3. RDB (recibos de depósitos bancários);
  4. CDB (certificado de depósito bancário);
  5. LCI (letras de crédito imobiliária);
  6. LCA (Letras de crédito do agronegócio);
  7. LC (Letras de câmbio);
  8. LH (Letras hipotecárias).

Além disso, é importante ressaltar que mesmo que ocorra a restituição do montante investido, essa devolução não costuma ser instantânea. O tempo médio para liberação dos recursos nos últimos dez anos foi de aproximadamente três meses. 

No entanto, apesar do FGC divulgar esse tempo médio, é importante frisar que cada caso é avaliado individualmente. dessa maneira, a rapidez do processo dependerá dos trâmites judiciais relacionados ao processo e dos controles da instituição devedora.

E quem não possui cobertura?

Nesse caso, o detentor do título, está sujeito ao não recebimento, no caso dos títulos públicos, não há cobertura, pois ao comprar um papel do tesouro, o investidor já está assumindo o risco soberano, o que na prática indica que o país precisa quebrar e não honrar suas dívidas.

Em relação ao risco soberano, esta hipótese nunca aconteceu, entretanto, para as emissões da iniciativa privada no geral, é muito importante, avaliar essa capacidade do tomador, através da classificação de risco que o emissor recebe do próprio mercado. 

Como avaliar o risco de crédito?

Existem diversas empresas especializadas em fazer essa análise, conhecida como agências de classificação de risco ou agências de rating. Tais empresas realizam uma análise geral sobre a saúde da empresa e em seguida atribuem uma nota em forma de código.

A avaliação por códigos indica a capacidade da empresa em honrar seus compromissos. Apesar de existirem várias empresas ao redor do mundo, as três principais são: Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch.

No geral, dentre os principais pontos analisados pelas agências de classificação de risco na emissão do rating de uma empresa destacam-se:

  • Taxa de juros;
  • Nível de alavancagem;
  • Fluxo de caixa;
  • Solidez do balanço patrimonial;
  • Contexto político do país;
  • Projeções de resultados futuros.

Além disso, na grande maioria das vezes a classificação ocorre por ratings de nota, que mostram a posição do ativo com uma nota em relação ao risco de inadimplência proeminente.

A tabela a seguir mostra as notas de cada agência dentro de cada tipo de grau:

rating - renda fixa
No entanto, é importante destacar que cada agência possui metodologias próprias de classificação. 

Quando o investidor não possui tempo

Uma alternativa interessante, caso esteja decidido investir nesse tipo de investimento, é realizar a operação através de algum fundo de investimento com foco em renda fixa

Desse modo, ao colocar seu dinheiro em um fundo, o gestor assume a responsabilidade de avaliar e selecionar os melhores investimentos atrelados ao objetivo daquele fundo. 

Nesse caso, obviamente, o investidor está sujeito a algumas taxas cobradas pelo fundo, como a taxa de administração e eventualmente, taxa de carregamento e taxa de performance, na qual deve ser verificado pelo investidor antes de realizar a sua alocação no fundo.  

E a tal da rentabilidade? 

Os títulos de renda fixa seguem a mesma lógica dos investimentos em geral, ou seja, quanto maior o risco corrido, maior a possibilidade de retornos, desse modo, deve-se observar as diferentes possibilidades de indexadores.

No caso de um título pré-fixado, é acordado no momento da compra o quanto se receberá no prazo de vencimento do título, se o mesmo for pós-fixado, deve-se atentar ao seu referencial.

Os mais comuns entre os investidores iniciantes são os títulos indexados à Selic e ao IPCA, nesse caso, o investidor recebe uma taxa acordada, mais a variação do indexador que referencia o título contratado. Veja o exemplo abaixo: 

indexador renda fixa
Fonte: Tesouro Direto

Existe também para alguns desses títulos, a possibilidade de resgate antecipado, que pode conferir ao detentor, maiores ganhos  ou até prejuízo. Importante lembrar, que no caso de um título de renda fixa pré fixado, o resgate só será mantido, conforme combinado, caso seja efetuado após o vencimento do título. 

Além disso, outro fator muito importante para o investidor ficar atento, é em relação ao imposto de renda, que no caso de alguns títulos incentivados pelo governo, são isentos. Por essa razão, é importante fazer todos os cálculos da rentabilidade, antes de decidir aportar em um investimento específico. 

Veja também: Imposto de renda mais barato? Sim é possível, confira!

Conclusão

Com todos os assuntos abordados até o momento, creio que tenha ficado claro que a suposta segurança da renda fixa não passa de um mito, onde além da possibilidade de não receber o dinheiro investido, o investidor está sujeito a variação do papel no mercado (nos casos de papéis pré-fixados).

Em suma, é de extrema importância ter em mente que existem investimentos de renda fixa de baixo e alto risco, sendo necessário realizar um acompanhamento, tanto do cenário econômico, quanto da saúde financeira do seu devedor. Caso o investidor esteja atrás de segurança e não queira perder o sono, é ideal que procure alternativas cobertas pelo FGC ou títulos do Tesouro Direto.

Veja também: Com Selic em alta, o que ocorre com o financiamento imobiliário?

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