João Vitor

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Trabalha como consultor financeiro, é estudante de Engenharia Química pela Unesp e escreve sobre temas relacionados a economia, finanças e investimento.

A queda da taxa básica de juros em patamares nunca vistos antes, a preocupação em preservar o capital em virtude dos constantes choques políticos nacionais,  manter uma carteira balanceada frente ao covid-19 e também fugir do real, moeda com o pior desempenho no mundo em 2020, fizeram com que o investidor brasileiro tomasse mais risco e buscasse investir no exterior. 

Na montagem de um portfólio, diversificação é fundamental para tranquilidade e retorno nos investimentos, entende-se que uma carteira equilibrada deve ser composta por ativos de diferentes setores e sobretudo, com exposição ao mercado estrangeiro. 

Todavia investir nas bolsas de outros países, como a dos Estados Unidos, alguns anos atrás, seria necessário abrir conta lá fora, realizar remessa de câmbio etc, agregados em processos extremamente burocráticos. 

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O que são BDRs? 

Os BDRs, sigla de Brazilian Depositary Receipts, em sua tradução, “recibos depositários brasileiros”, trouxeram maior simplicidade ao investidor brasileiro, oferecendo a oportunidade de investir em empresas de fora do país. 

Resumidamente, os BDRs são certificados que representam os papéis de empresas do exterior, como Google, Apple, Amazon, Disney, Coca-Cola, entre outras gigantes globais. 

Nesta modalidade, o investidor brasileiro não está adquirindo diretamente as ações de uma companhia estrangeira, mas sim sua posse, ou seja, trata-se de valores mobiliários com lastro em ações internacionais negociados no Brasil. 

Os BDRs são negociados na B3, onde a instituição depositária adquire, no exterior, ações de uma companhia e as mantém em conta de custódia.  Em seguida, ela cria no Brasil um programa de BDR e as registra na CVM para negociação. 

É importante ressaltar que os preços dos BDRs aqui no Brasil seguem a variação das ações no exterior, assim como a variação cambial, ou seja, esses ativos são negociados em moeda local, no caso, em reais.

Podemos observar um esquema de como funciona esse processo:

Fonte: B3

É a partir de todo esse sistema que o investidor comum, por meio dos BDRs, pode se vincular às companhias estrangeiras e obter participação, mesmo que indireta, dos seus resultados. 

Os BDRs simplificam os trâmites para os investidores que não desejam abrir conta em instituições estrangeiras, para que possam investir diretamente em outros países,  com capital moderado.  

O mercado de BDRs

Até pouco tempo, somente investidores qualificados (aqueles com mais de R$ 1 milhão em investimentos) podiam investir em BDRs pela B3. 

No entanto, a partir do dia 22 de outubro de 2020, qualquer investidor brasileiro, independente do patrimônio, também pode investir. Além disso, houve redução na quantidade mínima de negociação no mercado, de 10 unidades de cada BDR para apenas 1 unidade. 

Essas iniciativas facilitaram ainda mais o acesso do pequeno investidor as ações de empresas listadas em bolsas no exterior.

No mês de setembro os BDRs ganharam maior liquidez, negociando em torno de 191 milhões de reais por dia, frente a 25 milhões em setembro do ano passado. O gráfico abaixo mostra a evolução mensal da relação entre ADTV (R$ milhões) e Média diária de negócios, do período de setembro/2019 a setembro/2020.

Volume negociado de BDRs em 1 ano

Fonte: B3

Classificações 

Os BDRs são classificados em diferentes níveis, que variam de acordo com as características de divulgação de informações, distribuição, negociação e a existência ou não de patrocínio das empresas emissoras dos valores mobiliários objeto do certificado de depósito.

Ademais, os BDRs são divididos em duas principais categorias:

▪ Patrocinados

▪ Não patrocinados

BDRs patrocinados

Os certificados patrocinados representam aqueles cuja própria empresa emissora das ações tem o interesse em oferecer seus ativos na bolsa brasileira. 

Assim, a companhia emissora dos valores mobiliários no exterior deve contratar essa instituição depositária no Brasil, que será responsável por emitir ou cancelar os BDRs patrocinados conforme a demanda dos investidores brasileiros no mercado primário.

Além disso, os BDRs patrocinados são divididos em três níveis: nível I, II ou III. 

No nível I a empresa estrangeira é dispensada do registro na CVM e os certificados devem ser negociados em um balcão específico. Além disso, não são exigidas outras informações da companhia emissora além das que já está obrigada a divulgar em seu país de origem. 

BDRs patrocinados de níveis II e III, necessitam de registro junto à CVM e os certificados são negociados no pregão normal da bolsa. 

BDRs não patrocinados

Nos BDRs não patrocinados a aquisição dos papéis e emissão dos certificados lastreados partem do interesse da própria instituição depositária. Dessa forma, os BDRs emitidos não possuem vínculo direto com as companhias estrangeiras. 

Em relação ao nível, eles serão sempre considerados de nível I, onde a obrigação de divulgar ao mercado brasileiro as informações corporativas e financeiras das companhias estrangeiras parte da instituição depositária.

Características técnicas

O ticker do BDR é composto por 4 letras que representam a empresa internacional e também por dois números — que ajudam a indicar o tipo de BDR. Possui lote padrão de 1 BDR e seu prazo de liquidação é D+2, a partir da data de negociação. 

Exemplo:

Código de negociação

XXXX = 04 letras maiúsculas que representam o nome da empresa.

YY = número que representa o Nível da BDR (32 – BDRs Patrocinadas Nível II / 33 – BDRs Patrocinadas Nível III / 34 ou 35 – BDRs Não Patrocinadas Nível I). 

Vantagens dos BDRs

Agora que entendemos um pouco melhor sobre a dinâmica dos BDRs podemos refletir quais as suas vantagens. A primeira se refere a fácil exposição do investidor pessoa física ao mercado internacional, possibilitando maior diversificação geográfica, mitigando os efeitos do risco-país.  

A segunda vantagem diz respeito a não obrigatoriedade de operações de câmbio, bem como, a criação de contas no exterior, para que o investidor possa investir de em ações estrangeiras, participando indiretamente dos resultados de grandes empresas internacionais.

Desvantagens dos BDRs

A primeiro desvantagem está na disponibilidade de BDRs, comparada ao mercado americano, ao todo são 671 BDRs disponíveis na B3, contra mais de 8 mil no mercado estadunidense. 

Paralelo a isso, encontra-se o risco de liquidez, ou seja, o volume de negociações dos BDRs não é muito alto, caso o investidor busque rapidez na conversão do ativo em capital as BDRs não serão suas aliadas. 

Para o investidor que deseja ser sócio da empresas, os BDRs não se mostram uma boa opção, uma vez que quem adquiriu o papel foi o BDR e não o investidor pessoa física.

A mordida do leão

Outro ponto importante dessa modalidade de investimento é referente a sua tributação. Os ganhos de capital nas operações com BDRs são isentos de IR até o limite mensal de 20 mil reais no mês, caso ultrapasse esse valor e haja ganho de capital, a operação deverá ser tributada em 15%.  

Em comparação com o investidor estrangeiro a tributação só ocorre se ultrapassar o montante de 35 mil reais, com ganho de capital, sendo tributado também em 15%. 

O quadro abaixo mostra a diferença tributária entre as vendas abaixo e acima de 35 mil reais sobre lucros de BDRs. 

Conclusão 

O investimento em BRDs se tornou a maneira mais prática para o pequeno investidor ter acesso ao mercado global, sem burocracias e custos diferenciados, com operações na própria B3. 

Todavia, apesar do lote padrão ser alterado para 1 unidade, no caso da Amazon (AMZO34), o investimento seria de aproximadamente de R$ 9350 por apenas 1 BDR. 

Pegando o exemplo da Amazon, investindo diretamente no exterior, você caro leitor, poderia comprar 0,001 da ação em dólares, o que seria aproximadamente 3 dólares, neste sentido o mercado norte-americano é mais justo com os pequenos investidores.

Hoje em dia os investidores contam com boas opções para abertura de conta em uma corretora no exterior, com atendimento em português e realização da operação de câmbio na próprio plataforma. 

Quem sabe um dia a CVM flexibilize o fracionamento por aqui, já seria o suficiente para investir nas melhores empresas do mundo sem cortar o cafezinho. 

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