O que esperar do setor automotivo em 2021 e no pós-pandemia?

A pandemia tem trazido grandes dificuldades econômicas a diversos setores da economia no Brasil e no mundo, nos mais variados cenários, ao passo que tem favorecido alguns poucos, como é o caso do setor de tecnologia ligado a celulares, smartphones e das plataformas de vendas digitais.

Entretanto, o setor automobilístico é o que tem passado por uma dessas maiores dificuldades, e junto com ele, a necessidade de se reinventar em meio a um cenário tão desfavorável até então.

A expectativa em 2019 era de que as montadoras tivessem no ano de 2020 um crescimento de 10%, estimativa que foi completamente destruída pelo acontecimento da pandemia do novo coronavírus.

Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), o ano de 2020 acabou acumulando uma baixa na produção de aproximadamente 31,6%, atingindo então o que seria o menor patamar desde o ano de 2003.

O mês de abril de 2020, por exemplo, acabou ficando praticamente paralisado em termos de produção, o que também colaborou para o enorme decréscimo da produção de novos carros no setor.

O gráfico a seguir mostra essa redução drástica da produção mensal de veículos no Brasil em 2020, até o mês de setembro.

O número de exportações de veículos do Brasil, por sua vez, acabou sendo o menor desde o ano de 2002. O alto custo para produzir carros no Brasil, é um dos fatores que mais dificultou essa exportação, aliado a falta de demanda que o setor vive no cenário global.

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Não à toa, passamos recentemente pelo encerramento da produção de veículos da Ford no Brasil, que fechou todas as suas fábricas e gerou uma grande polêmica a respeito do custo que o país propõe para o funcionamento sustentável do setor no cenário nacional.

Para o ano de 2021, a projeção da Anfavea é de um aumento de 25% na produção de veículos. Esse crescimento pode enganar de certa forma pelos números, já que 25% de aumento não faria com que se atingisse nem o patamar de produção anteriormente visto em 2019, tamanha foi essa redução ocorrida em 2020.

A estimativa de venda, porém, ocorre de maneira ainda mais pessimista. Alguns analistas do setor apontam que as vendas não devem voltar ao patamar pré-pandemia antes do ano de 2030. Para se ter uma ideia, o gráfico a seguir (tirado do site nexojornal.com.br), mostra como a pandemia afetou as vendas de veículos no Brasil no ano de 2020.

O problema das montadoras é apenas no Brasil?

Embora a grande discussão de narrativas a respeito do fechamento da Ford no Brasil, o setor automobilístico como um todo não vive problemas apenas no cenário nacional. Na Alemanha, a Ford anunciou a suspensão de suas atividades na Alemanha durante 1 mês, por conta de uma escassez mundial da reposição de chips e pela dificuldade de demanda de veículos no país.

O corte de produção das montadoras tem ocorrido de maneira generalizada, justamente pela falta de demanda que tem sido visto de forma mundial frente aos novos hábitos de consumo proporcionados pelos compradores e pela diminuição do poder de compra frente ao aumento do desemprego e a redução da atividade econômica.

Entretanto, esses cortes de produção em certos países não são os únicos problemas que as montadoras têm enfrentado com a crise econômica que a pandemia tem trazido. Há uma falta de matéria-prima para que as mesmas possam retomar o patamar da produção anterior ao início da Covid-19 no mundo.

Em dezembro, as montadoras anunciaram por meio da Anfavea, que já havia a possibilidade de que a produção parasse, em meio a falta dessa matéria-prima. O aço estava entre os itens mais escassos.

Com todos esses fatores, não só a Ford, mas também outras montadoras como Honda, Toyota, Nissan, Volkswagen e Fiat, estão enfrentando dificuldades para encontrar matéria-prima para a produção de seus veículos.

O setor agora tenta uma recuperação, porém a falta desses materiais e o consequente encarecimento dos mesmos, tem aumentado ainda mais essa dificuldade, nesse caso, fazendo com que a Ford suspenda sua produção até mesmo em países desenvolvidos como a Alemanha.

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Frente a isso, ocorre o aumento cada vez mais acentuado de pressionar as montadoras para que possam iniciar novos projetos em prol da criação de carros elétricos, que tem sido uma realidade cada vez mais palpável para o futuro do setor automotivo.

Os novos hábitos de consumo e a necessidade de reinvenção no setor automotivo

Com todas essas questões citadas anteriormente, todas as montadoras tiveram que se reinventar em meio a novas formas de obtenção de lucro. Os consumidores passaram a comprar menos carros, e guardar capital para realização de reservas de emergência e uso para serviços mais essenciais no dia-a-dia.

Além disso, o uso mais sustentável dos bens de consumo é uma ideia que tem se disseminado entre os mais variados públicos consumidores, e não seria diferente no setor automotivo.

Com isso, as montadoras de veículos passaram a competir com as locadoras através dos aluguéis de carros, já que os consumidores estão sentindo menos a necessidade de obter veículos para posse definitiva e a maior procura por eles de forma temporária.

Dessa forma, ocorreu a criação de planos anuais na Fiat e Volkswagen, por exemplo, para que o consumidor possa alugar um carro, ideia que parece a princípio ir contra o próprio modelo de negócios dessas montadoras.

O foco a partir de agora para manter o setor aquecido, seria atrair a atenção dos consumidores para que possam pagar menos para ter o veículos em um menor período de tempo ou por alguma temporada, do que gastar muito mais dinheiro para ter a posse desses veículos em uma compra.

Essa alternativa traz à tona a intenção de gerar uma nova fonte de renda para as montadoras, além de recuperar a criação de empregos no setor, que recuou cerca de 4% só no ano de 2020.

A tendência dos consumidores tem sido justamente seguir essa ideia de carros por assinatura, já que reduz os custos com relação ao veículo durante o ano e paga-se pelo veículo apenas em situações de necessidades pontuais. A Fiat e a Jeep já começaram a adotar medidas quanto a isso a partir do mês de janeiro de 2021. Nesse mesmo mês, a Volkswagen está em negociação com algumas plataformas para começar na mesma atividade.

Embora a venda de veículos seja responsável pela maioria esmagadora das receitas geradas pelas montadoras, o fato é que esse percentual tem sido gradativamente reduzido, frente aos novos serviços que estas estão propondo do ponto de vista de inovação da mobilidade.

Além disso, o próprio atendimento ao cliente foi totalmente transformado para o meio digital, de modo que essa tendência deve continuar ainda nos anos que se sucedem ao pós-pandemia. Com isso, a presença das concessionárias pode ter um papel um tanto quanto reduzido em relação ao que se tinha antes, e as montadoras podem reduzir custos.

Outro ponto interessante, é que embora os conceitos de sustentabilidade estavam pouco a pouco trazendo à tona a realidade cada vez maior dos veículos de transporte coletivo, a pandemia acabou trazendo um fator importante para a volta de se valorizar a obtenção de um carro, seja pela compra ou por aluguel, que está justamente na necessidade e a procura por um transporte individual.

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O distanciamento social, e o fator de se evitar aglomerações durante a pandemia que já dura há quase 1 ano no mundo todo, fez com que não só se impulsionasse a procura por serviços desses aluguéis de veículos como também intensificou uma pergunta importante entre as montadoras: “Como fazer para tornar os carros mais sustentáveis do ponto de vista ambiental e atender a demanda do transporte individual ao mesmo tempo?”.

A ascensão dos carros elétricos

A procura cada vez maior por carros elétricos têm crescido ao longo do tempo. Dessa forma, a Tesla acabou ganhando uma ascensão gigantesca no ano de 2020, e Elon Musk se tornou o homem mais rico do mundo.

No ano de 2020 as ações da Tesla subiram mais de 700% e cresceram mais aproximadamente 20% em 2021, no qual são negociadas a mais de US$860,00 cada. Com isso o valor de mercado da maior montadora de veículos elétricos do mundo já vale cerca de US$860 bilhões. Sabe o que isso significa? Que a companhia de Elon Musk já vale mais que as 10 maiores montadoras de veículos do mundo juntas.

No Reino Unido, o primeiro-ministro Boris Johnson anunciou de forma oficial no país a proibição da venda de veículos novos a diesel e gasolina a partir do ano de 2030, enquanto os carros no formato híbrido podem permanecer até 2035 sendo fabricados.

Não obstante, outras potências mundiais já estudam a possibilidade de adotar medidas parecidas. Na China, já se fala em adotar isso antes de 2030, nos EUA, cada estado terá sua decisão, mas a Califórnia, por exemplo, já afirmou seu interesse em proibir a venda de carros movidos a gasolina a partir de 2035.

A Noruega, muito à frente destes, já planeja que até 2025 os carros movidos a gasolina e diesel já devem ter praticamente desaparecido, já que 61% dos veículos do país até o mês de setembro do ano passado já eram elétricos, e 80% híbridos recarregáveis.

Vale salientar, porém, que a tendência mundial a ser seguida da ascensão dos carros elétricos ainda não está sendo acompanhada por uma produção que atenda a uma demanda para toda população compradora de veículos pelo mundo.

A expectativa, porém, é que sejam vendidos mais de 20 milhões de carros elétricos até 2020, em projeção realizada pela Bloomberg no mês de setembro do ano passado. Os dados estão demonstrados no gráfico a seguir:

Desse modo, essa necessidade de reinvenção das montadoras tradicionais com essas mudanças nas leis governamentais que podem dificultar o atual modelo de produção dessas empresas a um longo prazo, pode trazer à tona uma produção massiva de veículos elétricos, além do desenvolvimento de modelos mais acessíveis em seu preço.

Muito se questiona dos motivos que levam ainda aos carros elétricos serem tão caros, mas o fato é que a falta de volume mundial ainda é um fato relevante que afeta o preço desses automóveis, além da fabricação ainda limitada dos componentes necessários para isso, como as baterias.

A transformação dessas montadoras deve justamente vir de encontro com a expectativa dessa demanda de veículos elétricos e também do investimento em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias, que andem juntas com esse ideal de sustentabilidade e dos conceitos de ESG que a geração atual de investidores vem adotando.

Conclusão

As montadoras de veículos tradicionais, como a Ford, Volkswagen, Honda, Toyota e entre outras gigantes do setor automotivo têm passado por diversas dificuldades e situações bastante desafiadoras durante o período de pandemia.

Sem dúvida, o momento atípico e suas consequências têm transformado os hábitos de consumo na sociedade, o que alavancou ainda mais essa queda na demanda por novos automóveis, e assim, na produção de veículos pelo mundo todo.

Frente a isso, a pandemia também trouxe um olhar mais atento para o uso de veículos individuais, e as questões de sustentabilidade que antes estavam se encaminhando para o transporte coletivo, acabou voltando suas atenções para os carros novamente.

Mas dessa vez, as leis governamentais de países e a exigência de investidores com a inserção da sustentabilidade nos meios produtivos das empresas, tem feito com que as montadoras aliem a dificuldade de produção de veículos tradicionais de combustíveis fósseis, com a nova demanda por carros elétricos, o que deve trazer ao futuro próximo, uma revolução completa no modelo de negócios no setor automotivo em relação ao que conhecemos hoje.

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