João Vitor

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Trabalha como consultor financeiro, é estudante de Engenharia Química pela Unesp e escreve sobre temas relacionados a economia, finanças e investimento.

Naji Robert Nahas é um investidor e empresário libanês que ficou muito conhecido aqui no Brasil. Hoje com 73 anos, este homem já virou manchete em grandes jornais de relevância no Brasil por ter sido responsável de quebrar a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro praticamente sozinho.

Naji Nahas era um especulador do mercado financeiro e também um libanês que foi criado no Egito e que acabou vindo parar no Brasil. Ele chega ao Brasil com aproximadamente US$ 2 milhões de dólares que foram cedidos por sua família e fez um montante de empresas em seu nome, aos quais incluíam até mesmo bancos, seguradoras e diversas fábricas.

A fama de Nahas no mundo dos investimentos

Nahas acabou tendo um envolvimento forte com os irmãos Hunt, que por sua vez, eram muito conhecidos por ter atribuído certo controle ao mercado de prata, no qual tinham como principal objetivo, ter a quantidade máxima que pudessem no mundo que se existisse de prata. Mas o plano acabou caindo por terra, assim que o preço da prata despencou, o que fez com que o plano dos irmãos Hunt que estava junto com a família real da Arábia Saudita se frustrasse.

O papel de Naji Nahas nesse plano, foi justamente a intermediação da família real com os irmãos Hunt, e a partir daí, o nome de Nahas já começava a rodar o mundo através do conhecimento de investidores grandes do mercado, o que fez com o mesmo se inserisse nas especulações de ativos. Nesta participação da manipulação do mercado, Nahas teve que pagar US$ 250.000 aos EUA como multa.

Com um patrimônio na casa de centenas de milhões de reais com aproximadamente 40 anos de idade, Nahas já começou a investir na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro na década de 1980, onde começou a comprar boa parte de ações de empresas grandes do Estado brasileiro, entre elas estavam a Petrobrás e a Vale, por exemplo.

Os aportes de compra de Nahas desde 1983 na bolsa brasileira foram exorbitantes, de modo que, desde o ano de 1983, representantes da Bovespa alertavam-o a respeito da diminuição de seus aportes ao longo do tempo para evitar sanções futuras.

Nahas ignorou todas as advertências, frente a preocupação da Bovespa com um volume gigantesco de ações em poder de um único investidor. Um total de aproximadamente 80% do volume de negociações da Bolsa de Valores de São Paulo ficou sob domínio de Nahas, até que conseguissem barrar um pouco suas negociações, de forma a transferir para as corretoras estas demandas de valores de cobrança, que anteriormente estavam bancando as alavancagens de Nahas na compra de ativos.

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Dessa forma só após a restituição dos cheques realizados por Nahas que seriam cobrados na corretora, é que os ativos comprados por ele ficariam em suas mãos. O investidor não perdeu tempo e acabou migrando para a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro.

A Bolsa do Rio acabou aceitando todas as alavancagens de Nahas, por conta da esperança de liderar um grande volume de negociações no Brasil. O que eles não sabiam, é que essa aposta acabou saindo por um preço muito alto, e que essa exposição tão alta a um único investidor faria com que a Bolsa de Valores do Rio quebrasse tempos depois, de uma maneira que não se recuperou até os dias de hoje de tamanho tombo.

A estratégia de investimentos de Naji Nahas

Umas das maiores polêmicas em relação a Naji Nahas foi justamente a maneira que ele investia, que acabou lhe rendendo diversos processos após a quebra da Bolsa do Rio. Mesmo absolvido de todas as acusações judiciais, Nahas acaba tendo sua personalidade dividida entre defensores e pessoas que o consideram criminoso.

Basicamente, o que apontam fontes da revista Veja, as negociações eram realizadas de forma a aumentar artificialmente as cotações dos ativos, aos quais, por meio de corretores combinados, Nahas fazia negociações consigo mesmo, com dinheiro emprestado de bancos.

Esses empréstimos começaram a financiar todas as alavancagens de Nahas dentro da compra de ativos na Bolsa de Valores do Rio, o que fez com que ele fosse dono de uma grande parte do total de volume de ações de gigantes do Estado Brasileiro, como a Petrobrás, onde ele chegou a ter até 7% das ações, e a Vale, no qual chegou a possuir impressionantes 12%. 

Na época, só com essas duas companhias, a fortuna investida chegava na casa de centenas de milhões de reais, mas hoje em dia, ele seria um dos homens mais ricos do planeta, com dezenas de bilhões de dólares. Em resumo, a forma com que Nahas parecia fazer ser fácil se investir na bolsa, na verdade contava com alguns truques do mercado, de forma que necessitava de diversos operadores estarem em seu favor nesses planos.

O mercado futuro ficou nas mãos de Naji Nahas, que por sua vez ficou bastante conhecido nesse meio, apresentando cerca de 70% dos ativos em suas mãos, através dos empréstimos citados, e algumas vezes, empréstimos em cima de outros, para pagar os anteriores, formando uma grande bola de neve.

As especulações de Nahas, voltadas a compra do mercado de opções, teve como uma das maiores sacadas para o seu sucesso a manipulação do mercado. Nahas sabia que o potencial do mercado de opções e de especulações futuras podia dar retornos exorbitantes, desde que se acerte o máximo delas e invista fortunas consideráveis. Para conseguir o máximo de ganho nisso, o investidor arquitetou o cenário financeiro a seu favor.

Toda esse planejamento de operações, não era algo tão complexo na teoria, mas na prática era, já que precisava estar lado a lado com as instituições e muitos negociantes para que tudo desse certo nesse aumento dos preços de seus papéis comprados, e ele ganhasse muito dinheiro com tudo isso.

Era uma mistura de investimentos no mercado futuro e no mercado à vista, de modo alternado, no qual a compra no mercado futuro acontecia primeiro e em seguida inflava o preço das ações comprando-as à vista. 

No final do período de contrato futuro, Nahas ficava com o lucro dessas empresas e ainda conseguia realizar seu poder de compra, ficando com as ações também em suas mãos, tudo isso financiado pelos empréstimos de bancos. 

Obviamente que os bancos também acabavam ganhando muito com isso, através dos juros pagos, que mesmo pagando tudo isso, criava fortunas exorbitantes com os lucros feitos na compra e venda de ativos. 

Era um plano bastante compensatório, mas que acabava criando uma bolha nas cotações, ou seja, preço dos ativos subindo de uma forma artificial, utilizando mecanismos forçados, como o que Naji Nahas usou.

Cenário antes da quebra da Bolsa de Valores

Para entender um pouco melhor o contexto pelo qual Nahas estava inserido em seus investimentos, em 1989 a inflação do Brasil estava descontrolada, chegando em impressionantes 1784% ano ano. A desvalorização da moeda e do poder de compra das pessoas era absurdo.

Um dos recursos utilizados por Nahas para driblar essa desvalorização da moeda era justamente obter lucro mensal que compensasse essa perda, e essa ideia estava na cabeça de muitos investidores brasileiros, que se alavancaram em busca de um maior potencial de retorno. Nesse momento, Nahas comprava um volume altíssimo de ações à vista.

O acúmulo de compras dos papéis de ações, tanto de Nahas, quanto dos demais investidores, proporcionou um momento de aumento das cotações de forma extremamente acelerada. Para se ter uma ideia, ele proporcionou em 1988 que as ações no Brasil subissem média de 2500%. As ações da Vale subiram cerca de 1600% no período 1988-1989.

Quando tudo veio abaixo: A quebra da Bolsa no Rio

A manipulação do mercado de ações acabou ficando perceptível de forma cada vez mais clara, de modo que o presidente da Bovespa, instituição que já havia alertado a Bolsa do Rio a respeito dos perigos das alavancagens de Nahas, convenceu que os bancos parassem de emprestar dinheiro a ele.

Nesse momento os cheques feitos por Nahas que já haviam sido passados para compras de montantes de ações da Vale, acabaram voltando, sem fundos, passando toda essa bomba para as mãos das corretoras que estavam intermediando Naji Nahas, no funcionamento astronômicos dos seus ativos.

Além de não ter mais empréstimos para realizar as novas operações, Nahas viu sua carteira estimada em US$ 490 milhões apreendida pela Bovespa perdendo uma parte considerável de toda sua fortuna construída.

Esse valor da carteira de Nahas foi o que serviu para pagar parte dos prejuízos das bolsas e das corretores. Estas acabaram levando todo o prejuízo assim que Nahas parou de receber empréstimos e ficaram sem dinheiro para compensar os cheques sem fundos que Nahas havia feito com o objetivo de comprar mais ativos.

No dia seguinte ao ocorrido, os mercados permaneceram fechados, e um dia depois cerca de ⅓ do preço das ações caía abaixo, superior ao dia seguinte do crash da bolsa de Nova Iorque em 1929, tudo isso em um única dia. Os prejuízos do episódio foram em parte recuperados, mas a Bolsa de valores do Rio jamais se recuperou novamente.

A perda de confiança de investidores e corretoras, algumas dos quais fecharam as portas após o ocorrido, fez com que no ano 2000 a Bolsa de Valores do Rio Janeiro fechasse de vez.

As polêmicas da prisão de Naji Nahas

Nesta questão de ter cometido crimes, há diversas discussões que foram feitas entre especialistas, que por sua vez, se dividiram nas opiniões. Judicialmente inflar os preços de forma artificial dos ativos para se beneficiar com lucros é um crime no Brasil, mas Nahas afirma não ter cometido isso, alegando que suas operações já era um método bastante utilizados por diversos outros investidores.

O problema disso tudo é que algumas empresas que estavam sob o nome de Naji Nahas estavam comprando ações umas das outras, a fim de inflar os preços de forma artificial, criando uma bolha nas cotações dos mesmos. Este ponto, acabou pegando mal para as explicações de Nahas, que foi condenado a 1 ano de prisão domiciliar e o confisco de sua carteira pela Bovespa como já foi mencionado anteriormente.

Outras polêmicas estariam envolvidas no nome de Naji Nahas em períodos futuros, como envolvimento em desvios de verbas públicas, lavagem de dinheiro e polêmicas associadas a uma reintegração de posse de um terreno em São José dos Campos.

Conclusão

O período conturbado vivido nos tempos de Naji Nahas no brasil e todos acontecimentos que foram ocasionados por um único homem, detentor de um poder financeiro imenso dentro do mercado financeiro, um tanto quanto reduzido na época em comparação com os dias de hoje fez com que Nahas se tornasse um personagem brasileiro histórico para a Bolsa de Valores.

Um fator bastante interessante a se ressaltar é que o momento não teve uma relevância tão grande quanto teria nos dias de hoje, já que 5% do PIB que a bolsa representava na época, não chegaria aos pés da crise econômica que isso causaria, frente a valores aproximados a 55% do PIB de hoje, levando em conta dados de 2019.

Isso significa, que sozinho, Naji Nahas poderia talvez causar a maior crise econômica da história do mercado financeiro brasileiro, de forma sem precedentes. Marcado por diversas polêmicas em suas vida, pode-se dizer que Nahas marcou os noticiários, com sua forte personalidade, ele afirma até hoje ter sofrido um golpe do presidente da Bovespa, ao qual se diz impedido de se tornar o homem mais rico da América Latina.

Sua trajetória, bastante barulhenta e cheio de altos e baixos, rendeu influências não só na economia, mas reconstruiu a história da bolsa, que por sua vez, a partir da quebra da Bolsa do Rio, acabou sendo dominada pela Bovespa, dando o estopim para sua ascensão, até se tornar no modelo que temos hoje. 

Com muito mais cautela e medidas sendo tomadas, a Bovespa atual preocupa-se para que não se tenha mais casos semelhantes de manipulação de mercado e as consequências trazidas por intermédio de Naji Nahas.

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