Estamos vivendo um cenário de estagflação?

Estamos vivendo um cenário de estagflação?

Recentemente, os noticiários começaram a sugerir alguns conceitos econômicos para definir a situação econômica atual do país. Entre eles, o mais evidente é o de estagflação. Este, é um fenômeno econômico que acontece mediante a algumas situações que ocorrem simultaneamente.

Dessa forma, para buscar esclarecer um pouco sobre o conceito de estagflação, estamos trazendo um artigo sobre o tema. Com isso, entendendo seu conceito, é também possível entender sobre o cenário em que o país se encontra. Embora economistas ainda não considerem que estejamos em um cenário de estagflação, não só o Brasil, mas o mundo vem caminhando nesse sentido.

Entenda o conceito

Como o nome sugere, a estagflação significa a combinação de dois conceitos: estagnação e inflação. Este fenômeno econômico acontece quando o crescimento econômico não acontece (ou fica estagnado) e quando o desemprego e inflação estão em alta. Normalmente, o baixo crescimento econômico impede o aumento da inflação, conforme a lei de oferta e demanda.

Nesse sentido, quando a demanda dos consumidores cai, os preços também caem. Dessa forma, isso faz o estagflação ser um evento econômico um tanto incomum, causada por políticas econômicas que interferem no funcionamento usual do mercado. Isso pode ser um grande problema a ser resolvido, visto que boa parte das intervenções para reduzir a inflação aumentará o desemprego e vice-versa.

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Significado em economia

Podemos obter um grande entendimento do conceito de estagflação ao observar o momento que o termo foi utilizado pela primeira vez. A definição de estagflação foi utilizada na década de 1960 por um político britânico, chamado Ian Mcleod. Ele estava descrevendo o momento econômico da época como uma “situação estagnada”.

Contudo, a estagflação é mais associada com a recessão da década de 1970. Esta foi uma época em que os Estados Unidos obtiveram crescimento negativo de seu Produto Interno Bruto (PIB) após a crise do Petróleo. Durante esta época, a inflação dobrou em 1973 antes de atingir os dois dígitos, em 1974. Isso coincidiu com uma taxa de desemprego de 9% em 1975.

Dessa forma, o fato foi contra a proeminentes teorias econômicas da época, principalmente as ideias macroeconômicas baseadas na teoria Keynesiana. Políticas governamentais para reduzir a inflação aumentaram o desemprego, enquanto as políticas para reduzir o desemprego aumentaram a inflação. Desse modo, com a estagflação, economistas perceberam que as teorias nem sempre estão corretas.

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Causas da estagflação

Sendo assim, se a estagflação vai contra alguns dos mais aceitos princípios da teoria macroeconômica, quais são suas causas? Um dos fatores contribuintes é a impressão de moeda pelo governo, aumentando o fornecimento de moeda do país. Outra causa é quando o banco central cria crédito devido às suas políticas. As duas ações levam a inflação, devido ao aumento do fornecimento de moeda.

Nesse sentido, se essas políticas forem seguidas ao lado de outras que restringem o crescimento, isso pode resultar em estagflação. Por exemplo, o aumento de impostos e taxas de juros em uma tentativa de desacelerar o crescimento. Devido ao conflito entre às duas políticas destinadas à desaceleração do crescimento econômico e, em simultâneo, aumentar a inflação, esse choque resulta na estagflação.

Outra teoria para estagflação é explicada pelo choque de fornecimento, seja por aumento da queda repentina da oferta. Por exemplo, se há um aumento inesperado e repentino no preço de uma commodity, como o petróleo, os preços sobem enquanto os lucros caem. O conflito entre aumento de preços e redução de lucros, gera uma situação de estagflação.

Exemplos do fenômeno econômico

Para exemplificar a estagflação, podemos olhar para a situação econômica da década de 1970. A situação nos Estados Unidos espelha todas as causas mencionadas acima, ocorrendo uma tempestade perfeita para a estagflação. O país experimentou um período de alto crescimento econômico durante as décadas de 1950 e 1960. Isso tudo foi possível com ajuda do Federal Reserve (FED) impulsionando a demanda e mantendo os índices de desemprego baixos.

Contudo, os salários não conseguiram acompanhar o aumento dos custos dos bens de consumo na década de 1960. A crise do embargo do petróleo criou um choque na oferta, com as indústrias sofrendo com preços extremamente altos. Isso acabou ocasionando um efeito de arrastamento. A demanda caiu, os preços aumentaram e, com isso, surgiu a estagflação.

Além disso, um exemplo mais recente aconteceu em Zimbábue, em 2018 e 2019. Uma série de conflitos econômicos fez o governo inundar o mercado com oferta de dinheiro. A ideia era enfrentar o aumento da dívida nacional e o declínio da produção econômica. Com isso, ao combinar o crescimento da inflação com um crescimento econômico fraco, acabou também gerando a estagflação.

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O Brasil está caminhando para um cenário de estagflação? 

O cenário de pandemia se encaixa bem com o que foi falado acima. Impressão de papel pelo governo para socorrer país ocasionando o aumento da inflação e, em paralelo, uma atividade econômica baixa, mesmo que, gradualmente, a economia venha sendo reaberta conforme o aumento do ritmo de vacinação da população. Com isso, os preços sobem, com o custo de vida da população.

Segundo especialistas, esse cenário, no Brasil, é pressionado pela alta dos combustíveis e da energia elétrica. A inflação já atingiu a casa dos dois dígitos, bem acima da meta da inflação para o ano. Já o Produto Interno Bruto (PIB) neste terceiro trimestre, ficou próximo de zero. 

Matheus Peçanha, economista e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, está pouco otimista com o cenário. Para ele, mais um trimestre com PIB negativo será suficiente para decretar uma “estagflação técnica”. A última vez que o país viveu cenário parecido foi no biênio 2015 e 2016. 

Sendo assim, no primeiro ano, houve retração de 3,5% na economia, com IPCA maior que 10%. Já no segundo ano, houve retração de 3,3%, onde a inflação alcançou 6,29%. Contudo, o cenário não melhorou muito, vinha se recuperando a passos muito pequenos, com todo ganho perdido devido à pandemia.

Em suma, não basta somente a atuação do Banco Central, aumentando a Selic. Embora aumentar a taxa de juros diminua a quantidade de dinheiro em circulação, reduzindo a inflação, também freia a economia. Dessa forma, o Governo Federal deverá buscar medidas para alterar esse quadro de uma possível estagflação, ditando o caminho da melhora econômica.

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