Lucas Bassotto

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Economista, trader e especialista em conteúdo sobre economia, finanças e criptomoedas.

As bolsas de valores ao redor do mundo tiveram um começo de semana difícil. Os investidores nem se lembravam mais de quando a bolsa teve uma queda de mais de 3% em um único dia. A causa de uma queda tão abrupta é bem clara: o medo causado pelo impacto do Coronavírus na economia global.

Esses eventos são daqueles que podemos chamar de “Cisne Negro”. Acontecem aleatoriamente, mas são altamente impactantes e difíceis de prever. O Coronavírus já está impactando a economia global. 

Mas esse não foi o primeiro caso de contágio em escala global: o vírus SARS e a gripe H1N1, respectivamente em 2002 e 2009, foram exemplos claros que servem de aprendizado.

O que movimenta a economia?

O funcionamento da economia pode ser assemelhado ao de uma máquina. A economia é movimentada por trocas, o combustível do motor. As trocas ocorrem em escala global e são baseadas consumo de bens e serviços. 

Alguns países como China, Estados Unidos, Rússia e Japão possuem relação comercial com quase todos os outros países do mundo. Portanto, qualquer impacto sobre a atividade econômica desses países irá diminuir a perspectiva de crescimento, pois a economia mundial desacelera.

Portanto, eventos inesperados como ataques terroristas, desastres naturais e problemas com doenças infectocontagiosas causam um grande transtorno. O fluxo de trocas sofre interferências, ou é parcialmente interrompido. Se esses eventos se prolongam por mais tempo, afetam profundamente o crescimento econômico.

Recentemente, a China está passando por um problema com uma doença contagiosa da família coronavírus. Desde que o contágio tem aumentando, as bolsas ao redor do mundo estão passando por momentos difíceis.

O coronavírus na China

O coronavírus é uma família de vírus que causa síndromes respiratórias, como resfriado e pneumonia. Uma nova forma desse vírus surgiu em um mercado de peixe em Wuhan, na China. Desde então, mais de 4 mil pessoas foram infectadas em todo território chinês, tendo mais de 100 mortes confirmadas.

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Mapa do Coronavírus. Fonte: Gisanddata

Os principais sintomas do novo vírus são: dificuldade para respirar, falta de ar, tosse, febre e problemas intestinais. Em alguns casos, pode evoluir para pneumonia e insuficiência renal, ocasionando morte se não for tratado. O contágio se dá pelo ar, de pessoa para pessoa e tocando em objetos contaminados.

Com isso, cidades inteiras como Wuhan já estão em quarentena, o que significa que seus cidadãos precisam ficar isolados em casa ou em hospitais. Os transportes públicos não estão em amplo funcionamento e, com isso, as atividades comerciais estão parcialmente paradas.

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Wuhan está no centro das maiores cidades chinesas. Fonte: Folha de São Paulo

Além disso, o governo prolongou o feriado de Ano Novo Chinês, mas muitas pessoas estão ficando em casa ao invés de viajar pelo mundo, o que já causa um impacto negativo sobre o turismo local e mundial.  

O vírus já está causando impacto sobre a economia global. Os chineses representam uma grande parte da demanda por bens, serviços e commodities. 

Caso esse problema se prolongue por mais tempo, os efeitos serão muito mais negativos, principalmente para países que são os principais parceiros comerciais dos chineses, como o Brasil.

Casos semelhantes: SARS e H1N1

No entanto, o caso de contágio por vírus não é novidade na Ásia. Nos anos 2000, os chineses também passaram por dois vírus: SARS (Síndrome respiratória aguda grave) e H1N1 (Gripe Suína). 

O SARS também é da família coronavírus, só que diferente desse novo vírus, ele é mais letal e menos contagioso. A epidemia do SARS aconteceu entre 2002 e 2003, infectando mais de 8.000 pessoas, com 800 mortes confirmadas, uma letalidade de 10%. 

O H1N1, que ficou conhecido como Influenza, talvez seja o mais lembrado por ter sido uma epidemia mais recente, que se transformou em pandemia após chegar em quase todos os países do mundo e matar 17 mil pessoas no ano de 2009. 

Muitos outros casos de doenças contagiosas já aconteceram no passado e mataram um número maior de pessoas, tais como Gripe Espanhola, Gripe de Hong Kong, Gripe Asiática e Gripe Russa. Mais recentemente, o mundo também se preocupou com Ebola, Flu, Zika Vírus e surtos de Cólera. 

Mas como o mercado de ações reage após esses eventos? Afinal, conforme foi dito acima, são inesperados e possuem um grande impacto sobre a economia se ganharem escala. 

Impactos econômicos de uma epidemia

No ano da epidemia do SARS, a China desacelerou 2% no crescimento econômico, sendo que naquele ano cresceu 10%. No geral, a economia global desacelerou 0,1%. A agência de risco S&P disse para a Reuters que espera uma desaceleração de 1,2% do PIB chinês.

Caso os efeitos fiquem mais agudos, a economia brasileira poderá sofrer. Afinal, a China é a maior importadora de produtos brasileiros, chegando a exportar 30% de nossos produtos em 2017.

Recentemente, os chineses provocaram um aumento no preço da carne brasileira ao importar grandes quantidades devido a um problema em seu rebanho de porcos.

Estima-se que o Brasil deverá crescer 2,5% no ano de 2020. Um agravamento do Coronavírus diminui essa perspectiva. No entanto, ainda é cedo para estimar os impactos, pois ainda é necessário entender a potencialidade do vírus.

Como reagiu o mercado de ações em casos semelhantes?

A empresa Charles Schwab fez um levantamento sobre como o mercado reagiu após problemas com surtos de doenças infectocontagiosas.

No geral, o mercado não costuma se importar muito com essas doenças. No entanto, é importante que ressaltar que cada caso é diferente e o impacto econômico sempre vai depender do tempo em que o vírus fica circulando e do grau de letalidade. 

EpidemiaComeçoMudança no S&P após 6 mesesMudança no S&P após 12 meses
HIV/AIDS06/1981-0.20-10.73
Peste Pulmonar09/19948.2226.31
SARS04/200314.5920.76
Gripe aviária06/200611.6618.36
Dengue09/20066.3614.29
Gripe Suína04/200918.7235.96
Cólera11/201013.955.63
MERS05/201310.7417.96
Ebola03/20145.3410.44
Rubéola12/20140.20-0.73
Zika01/201612.0317.45
Rubéola06/20199.82%N/A



Fonte: Dow Jones Dados de Mercado

A tabela acima mostra o começo de cada epidemia e a reação do índice S&P 500, o principal índice de ações dos Estados Unidos. 

Inicialmente o impacto pode ser sentido nos primeiros dias. Os analistas e traders ficam atentos a qualquer novidade, e o mercado sempre reage mal. Contudo, em uma janela de 6 meses a 1 ano, o efeito já é completamente esquecido e dissipado. 

O índice MSCI, que é uma espécie do mercado global de ações, também mostra o efeito de epidemias sobre a bolsa: quase nulo no médio prazo. 

coronavírus bolsa de valores
Fonte: Charles Schwab

Isso reforça a máxima de que os preços de empresas na bolsa de valores são reflexo de seus fundamentos (Lucro Líquido, Margens, Baixo endividamento, Dividendos) e do atual ciclo econômico (Expansão, Retração ou Consolidação). 

Como as bolsas reagiram após o Coronavírus?

No entanto, é preciso ressaltar que cada situação é diferente. O último vírus que mais causou transtorno foi o H1N1, mas o novo coronavírus já é mais contagioso do que ele. Caso esse vírus se espalhe ao redor do mundo, os impactos poderão ser diferentes dessa vez.

Além disso, essa epidemia veio em péssimo momento para a economia chinesa, que contribui mais para o PIB mundial do que 10 anos atrás. A China está com o crescimento econômico mais lento desde os anos 90.

Um lento crescimento econômico chinês impacta diretamente a economia mundial, principalmente parceiros comerciais como o Brasil.

O Ibovespa chegou a cair mais de 3,32% no primeiro dia de negociação após a notícia de epidemia. O S&P 500 teve uma queda menor, de 1,55%. O gráfico abaixo mostra a reação das principais bolsas do mundo no primeiro dia de negociação. No geral, todas apresentaram queda após o acontecimento.

bolsas de valores e coronavírus
As principais bolsas de valores do mundo. Fonte: TradingView

Ainda há muita coisa para acontecer. Os efeitos do coronavírus sobre os mercados e a economia ainda são impossíveis de prever. Afinal, os vírus tendem a apresentar mutações, desencadeando em novas características de contágio e letalidade. 

Ativos de proteção

Ativos de proteção se beneficiam de eventos do tipo “Cisne Negro”. O ouro chegou a subir 4,12% nas primeiras horas de negociação. O Bitcoin, que recentemente vem assumindo características de ativo de proteção, também subiu mais de 5%. No entanto, o ouro voltou a cair horas depois.

bitcoin coronavírus
Gráfico de preço do Bitcoin (Azul) e Ouro (Laranja); O ouro voltou a cair no decorrer do dia. Fonte: TradingView

Por isso, é importante diversificar o patrimônio em diferentes classes de ativos. Uma boa diversificação pode proteger sua carteira de investimentos de Cisnes Negros, mudanças nos ciclos econômicos e, em algumas situações, até gerar retorno financeiro. 

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