O termo skin in the game ficou famoso quando Nassim Taleb lançou seu livro que levava o mesmo nome, que se junta a outros livros como “Antifrágil”, “Enganados pelo Acaso” e “Cisne Negro”. Taleb, escritor controverso, desafia neste livro as principais conceitos idealizados por acadêmicos e intelectuais.

Aliás, em suas obras, ele não poupa esses grupos de qualquer crítica. Sobra até para o “Prêmio Nobel”, que segundo Taleb, não deveria existir, pois os cientistas deveriam se preocupar em resolver problemas mais práticos. 

Contudo, um dos teoremas centrais é o mais importante: só acredite em quem está com a pele em jogo. Isto é, aqueles que estão colocando algo a perder. E isso pode se aplicar aos mais diversos campos da vida: empreendedorismo, economia, política e principalmente nos investimentos.

O mais interessante é que todos os conceitos de Antifragilidade, Cisnes Negros e Skin in the game convergem em um modo de pensar extremamente inteligente que muda completamente as perspectivas em que vemos as coisas ao nosso redor. Caso tenha interesse em explorar mais as ideias citadas, confira abaixo:

Skin in the game (ou pele em jogo)

Esse é também um dos conceitos mais interessantes e que mudou a forma com a qual escuto a opinião de outras pessoas, principalmente referente a investimentos. A ideia por trás do conceito é nada mais é do que colocar sua pele em jogo e sofrer com as responsabilidades caso sua ideia dê errado, ou aproveitar os louros da vitória caso tudo tenha dado certo.

Os políticos, por exemplo, são completamente a antítese dessa teoria. Se algo der errado eles podem falar: “Nossa, mas ninguém poderia prever isso, erramos, mas tudo bem, vamos socializar as perdas”. Sob esse pretexto, eles podem tomar decisões absurdas que afetam a vida de todos e, muitas vezes, não serem penalizados por elas.

Ao contrário desse cenário, o pequeno empreendedor que gasta seu capital para começar uma empresa está completamente com a pele em jogo. Caso suas decisões se mostrem equivocadas, seus erros atingirão a ele, que deverá assumir as consequências do erro. Ou seja, completamente o oposto do político burocrata.

Skin in the game é quase que uma relação de confiança. Afinal, em qual dos dois você confiaria ao pedir uma opinião sobre negócios e economia? Trazendo isso para o lado dos investimento: você investiria em um fundo no qual nem mesmo o gestor coloca seu dinheiro? 

A importância de aplicar este conceito nos investimentos

Em um artigo já publicado no Investificar, expliquei o motivo de não confiar completamente em seu gerente de banco na hora de investir. A lógica era bem simples: será que ele mesmo investe nos produtos em que está te oferecendo? Se ele não investe, por que então está recomendando para você?

Há, claramente, uma assimetria aí. Se o produto é tão bom assim a ponto de o gerente te oferecer, por que ele mesmo não está investindo? E é importante começar a adotar esses questionamentos como uma política para evitar riscos e palpites desnecessários nos investimentos. 

Trazendo outro exemplo prático aqui: certa vez, Taleb viu um show em que o mágico usava um picador de gelo. Após o show, ele viu gotas de sangue caindo da mão do mágico e pensou: é um indício de que ele realmente se arriscou ao fazer o papel, e que não foi algo falso. Com isso, o mágico passou a ter respeito do autor.

Quando você acredita em qualquer coisa, principalmente em investimentos, tende a ser enganado e perder dinheiro. Por isso é tão importante ter essa noção de skin in the game bem fixada na memória. Essa ideia evita potenciais danos ao seu patrimônio. Refazendo a pergunta: você comeria um prato que nem mesmo o chef do restaurante come?

Um outro exemplo claro de aplicação de skin in the game é quando vamos ouvir opinião de especialistas ou “analistas”. O mercado está cheio de charlatães fazendo previsões de preço de ações e criptomoedas. Não é muito raro ver alguém falar que o preço de ação XBT vai subir ou cair.

Ao perguntar sobre a posição desses especialistas nas ações em que estão falando, serão poucos que estão realmente seguindo suas próprias análises. Portanto, por que você deveria acreditar na análise se nem o próprio especialista está fazendo o que ele está recomendando?

Nunca confie em quem nunca errou

E podemos estender essa lógica para quase todos: vendedores, gestores, influenciadores e até amigos. Com essa lógica na cabeça, tendo a respeitar mais aquele analista que realmente se arrisca, que ao seguir sua análise, toma o prejuízo e não tem vergonha de mostrar o erro. Eu jamais acreditaria em um analista que nunca erra.

Trazendo uma curiosidade aqui: você sabia que Roberto Baggio nunca errou um pênalti em toda sua carreira? O primeiro pênalti que ele bateu por cima do gol foi justamente em uma final de Copa do Mundo. Mas diferente daquele analista que nunca erra, Baggio estava com a pele em jogo, assumiu as responsabilidades do erro e fez uma linda carreira na Itália.

Voltando para o mundo das finanças e investimentos: o analista que erra, assume seus prejuízos e ainda continua no mercado depois de anos, passou pelo crivo do tempo e conseguiu, mesmo com todas as adversidades, conquistar o respeito de seus seguidores e sobreviver com seus investimentos. 

Isso torna sua análise bem mais confiável, mas não pela taxa de acertos, mas pela capacidade de sobreviver mesmo com os erros. 

Mas qual o segredo do analista que nunca erra? Geralmente essas pessoas fazem muitas previsões e destacam apenas as corretas. E como elas não têm nada a perder, sobrevivem mesmo se errarem muito. Além disso, é pouco provável que elas estejam investindo seu dinheiro de acordo com as análises. 

Não é muito difícil ver especialistas em investimentos recomendando uma ação depois de fazer a análise e quando você olha a carteira dele, constata apenas CDB 100% DI e fundos de renda fixa. Por isso, quando vir algum palpite ou análise, já peça para o responsável mandar uma foto do investimento feito de acordo com ela. 

Por que skin in the game é importante?

Conforme dito acima, skin in the game é uma relação de confiança. Nassim Taleb meio que pega o Imperativo Categórico de Immanuel Kant que diz: “Faça aos outros o que você faria a si mesmo” e a adapta para a “Regra de Prata”: não faça aos outros o que você não faria a si mesmo. 

Ele argumenta que o Imperativo Categórico é extremamente complicado e quase impossível de ser utilizado na prática, porque deveríamos cuidar da nossa vida e não decidir arbitrariamente o que deve ser bom para os outros. Além disso, temos mais facilidade de distinguir o que é ruim do que é bom.

Por isso, um gestor de carteira com a pele em jogo jamais recomendaria um investimento que ele sabe que é ruim. Isso é diferente de um gerente de banco que recomenda investimentos que ele sabe que é ruim. E é por isso que o gestor é mais confiável do que o gerente.

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