Não seja um sócio-torcedor de ações

Imagino que independente de acompanhar todos os jogos ou assistir apenas algumas partidas aleatórias, você deva ter um time de futebol, certo?! 

No meu caso, eu torço para o Fluminense, o famoso tricolor carioca. 

Tenho que confessar que não foi fácil torcer para o meu time em muitas situações, principalmente em 2013, com o risco do rebaixamento na porta. 

Na escola, não faltaram provocações, principalmente após o tricolor entrar com processo judicial contestando o resultado, relatando irregularidades em atletas do Flamengo e Portuguesa, que por fim resultaram na retirada do Fluminense da zona de rebaixamento e mandaram o Portuguesa para a Série B. 

Depois de 2013, vieram 4 anos de vacas magras, sem títulos importantes, até 2017, onde ganhamos a Taça Guanabara. Tenho que admitir que ser tricolor naquela época e sob aquelas circunstâncias, exigia muita personalidade e persistência. 

Mas apesar de todo o vigor em defender a “honra” do meu time, era muito desafiador argumentar a favor. Apesar da situação desfavorável, o time nunca desistiu, infelizmente essa “garra” não se traduziu em resultados, foram míseros 46 pontos no campeonato e até então 17º lugar na tabela. 

No fundo, eu sabia que o time estava em uma péssima fase, mas se alguém falasse contra, defenderia até o fim. Para mim, naquele momento, meu papel como torcedor era provar que meu time era sempre o melhor, indiscutivelmente. 

Dessa maneira, passava horas falando com afinco das conquistas do Fluminense no passado, nos tempos de Carlos Alberto Torres e Romerito, defendendo sempre o meu ponto de vista, “custe o que custar”. E, claro, quando meu time perdia, a culpa era da arbitragem. 

Hoje, além das lembranças que compartilho com vocês, levo importantes lições sobre o que é ser um torcedor “clubista” e como isso pode afetar até mesmo quando o assunto é investimento. 

Deixe o clubismo para trás 

Atualmente, assim como no futebol, vejo os investimentos de forma mais realista. Aprendi que na renda variável existem fases, e que nem sempre vamos gostar de todas elas, e que o mais importante é ter visão analítica, deixando de lado certas paixões.  

Entendo que muitas das vezes não é fácil, porém extremamente necessário para qualquer investidor durante sua tomada de decisão. 

No ano de 2020 não faltaram motivos para a bolsa cair, dificuldades em passar as reformas, brigas entre o presidente da câmara dos deputados e o ministro da economia,  possível quebra no teto de gastos, diversos esquemas de corrupção delatados, Trade War, disputa presidencial americana,  e no meio disso tudo, tivemos ainda uma pandemia. 

E, mesmo assim, estamos para fechar o ano de 2020 com a bolsa em 118 mil pontos. E observando esses resultados além das expectativas, podemos perceber um clima de euforia, como aquele gol da vitória aos 45 do segundo tempo. Logo, não é incomum ver o investidor pensar que nada pode parar suas ações ou até mesmo que aquele FII, que segundo ele, é o mais bem pago de determinado mês. Agora sua carteira se torna imbatível.  Será?

Em um jogo de futebol, os times gastam muito tempo de preparação antes da partida, tudo para tornar seus jogadores mais eficientes possível. Mas, quando se trata de investir o patrimônio da sua vida, a história é completamente outra. 

O outro lado da moeda

Por outro lado, quando os resultados são bem piores do que o esperado, fica aquele clima de vice-campeonato, que apenas um investidor torcedor consegue mensurar. 

E igualmente ao que eu fazia quando meu tricolor perdia, o investir transfere esse resultado para fatores externos, é a economia que “não anda”, é a jogada de má fé das concorrentes, são os analistas que não estão enxergando as excelentes oportunidades, são os múltiplos que estão baratos demais para ser verdade e diversas outras desculpas enfadonhas para carregar aquele ativo anos a fio, na tentativa de recuperar prejuízos passados, ou na espera da volta de seu passado glorioso. 

A renda variável é para longo prazo? Sim, sabemos que ao longo do tempo, as empresas tendem a valorizar de acordo com o crescimento do negócio. Aprendemos essa lição com o maior investidor de todos os tempos, Warren Buffett, mas também aprendemos que a “Regra número 1: nunca perca dinheiro. Regra número 2: lembre-se da regra número 1.”

Uma vez que o apito final foi dado, não há como ganhar o jogo. Às vezes é necessário tocar a bola para trás e reestruturar o jogo, para continuar na disputa, evitando acelerar no meio de campo, perder a bola, tomando risco de contra-ataque. Nos investimentos funciona igual.

Você pode ser ofensivo nos seus investimentos e na sua tomada de risco quando os ativos de fato estão mal precificados e o momento está propício. Todavia, quando os riscos forem mais relevantes, você deve ser mais defensivo, aceitando ter menor rentabilidade e realocando alguns ativos, reabrindo taticamente quando o momento for propício novamente. 

Aceitando os cartões amarelos 

É preciso reconhecer o erro e aceitar, o próprio guru de Omaha vendeu todas as posições que tinha nas principais companhias aéreas americanas no mês de abril por conta da pandemia de coronavírus.

Diferentemente do que ocorre com o futebol, onde escolhemos um time para levar no coração, o mesmo não deve ocorrer com os seus investimentos. Caso a sua tese de investimento se conclua ou vá na direção contrária, não há nada de errado em colocar o restante do dinheiro no bolso e estudar outras oportunidades mais vantajosas. Lembre-se que é sempre mais vantajoso fazer uma substituição do que jogar com 10 no campo. 

Procure sempre se questionar sobre suas escolhas de investimento, se há alguma estratégia bem formulada, caso não, a bolsa será sempre o “cara ou coroa” de uma partida de futebol. Portanto, não vista a camisa do seu investimento custe o que custar. 

Você no comando

Diferentemente do futebol, em que você, como torcedor, não é capaz de mudar o resultado da partida, quando o assunto são seus investimentos, você é o verdadeiro técnico da sua carteira. 

Assim como um time, precisa de atacantes, zagueiros, goleiro e os demais, uma carteira deve ser bem diversificada, buscando o equilíbrio do seu portfólio. Concentrar todo o seu capital em um ou dois ativos não costuma ser uma boa estratégia.

Imagine se, no início de 2020, você estivesse excessivamente concentrado tudo em IRB Brasil (IRBR3), seus R$ 30 reais por ação investidos inicialmente virariam R$ 7,00, pois o mercado não esperava que a empresa estaria envolvida em fraudes no próprio balanço financeiro. Não preciso dizer o que aconteceria com a sua carteira no início de março, não é mesmo?

Por isso é importante diversificar bem os seus investimentos, nos mais variados segmentos. Afinal, não se faz um bom time apenas com atacantes, por melhores que eles sejam.

É através de estudos aprofundados sobre a empresa que será possível perceber o que aquele ativo gera de valor aos acionistas, monitorando constantemente sua evolução, tanto no seu modelo de negócio, quanto em suas práticas de governança, disponíveis amplamente a todos os seus acionistas através do RI (relação com o investidor) da empresa. 

Conclusão

Vivenciamos a bolsa cair de forma abrupta e se recuperar de maneira espantosa em 2020. No entanto, é natural que haja uma recuperação, tendo em vista que grande maioria dos resultados não foi tão profunda quanto as desvalorizações das ações na tela do seu home broker.

Neste contexto surgiram três tipos de investidores, o primeiro ficou de gandula, só observando a partida. O investidor manteve posições, viu seu patrimônio despencar e depois retornou novamente. O segundo, assim como um zagueiro em lances de lateral, foi oportunista, enxergou uma grande oportunidade e não a deixou passar, comprando bons ativos mesmo com suas quedas vertiginosas de março. O terceiro, assim como um técnico com 5 perdidas sem ganhar, não aguentou a pressão e acabou reduzindo suas posições ou saindo de vez da Bolsa. 

Definitivamente não foi um ano para amadores. 

Caso você seja do 1º ou 2º grupo de pessoas e perceba uma contínua sensação de invencibilidade nos seus investimos, cuidado, você pode ter sido picado pelo mosquito do Bull Market e pode estar sofrendo de alucinações. Os principais sintomas são: alta confiança que o mercado vai seguir positivo para sempre, alta confiança de que achou a “próxima magalu“, achar que os colegas que zeraram posições são descrentes e “mãos de alface”. 

Assim como em um campeonato, na renda variável não há busca por atalhos ou caminhos mais tranquilos, é mata-mata, e para vencer tem que haver muito estudo e dedicação. 

Ainda sigo na torcida pelo Fluminense, os últimos jogos não foram bons para o tricolor carioca, com 2 derrotas, 2 empates e 1 vitória. Mas quem sabe ano que vem, contra o Flamengo, seja diferente.

Torcer exige um pouco de fé, investir, não! Portanto, todo cuidado é pouco com os seus investimentos.

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