João Vitor

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Trabalha como consultor financeiro, é estudante de Engenharia Química pela Unesp e escreve sobre temas relacionados a economia, finanças e investimento.

Grandes crises econômicas não acontecem de uma hora pra outra. Elas se iniciam em algum momento, na economia de alguma localidade ou país, e com a grande vinculação das economias internacionais, acabam se tornando crises não mais locais, mas do mundo todo.

Geralmente, elas têm origem em uma série de motivos, que podem se acumular em um problema que gera um movimento cascata incontrolável. Essa ideia de crises financeiras mundiais é um conceito relativamente novo na história no formato que temos hoje de mercado financeiro.

Com a evolução e volumes financeiros altíssimos, além da associação de economias entre países, acabamos tendo essas crises nos moldes que conhecemos hoje a partir da grande crise de 1929.

A bolsa de valores, por sua vez, acaba sendo um grande termômetro para essas crises, já que a volatilidade e grandes quedas de preços nos ativos, podem estar associados a algum acontecimento atípico dentro do cenário macroeconômico em diversos momentos.

Sendo assim, em grandes crises econômicas, ocorreram os momentos de maior queda das bolsas internacionais e serviram de muito aprendizado aos investidores que viveram todos esses momentos de perdas, mostrando que nem só de ganhos e rentabilidade se vive a bolsa de valores e o mercado de ativos financeiros, como as ações.

Em 2008, tivemos uma dessas grandes crises mundiais que, por sua vez, penalizou as bolsas das maiores economias do mundo, aos quais muitas sentiram até os dias de hoje. Algumas economias nem se quer conseguiram se recuperar totalmente, após aquele período.

O que foi a crise de 2008?

A crise de 2008, como é citada, ocorreu, na verdade, entre os anos de 2007 e 2008 e é considerada a pior crise desde a quebra da bolsa de Nova York em 1929. Ela ficou conhecida como a crise do “subprime”.

Recebe esse nome devido ao motivo que levou a toda essa quebra, que foi diretamente ligada ao aumento das taxas de juros e a consequente inadimplência no setor imobiliário, que acabou formando-se uma “bolha” e passando por sérios problemas.

bolha crise de 2007

Como aconteceu a crise de 2008?

Para entender os motivos que levaram a crise de 2008, é muito importante voltarmos no tempo, e compreender passo a passo toda a história que levou a isso. Em 1993, o preço dos imóveis nos EUA, começaram a aumentar continuamente e isso foi acontecendo durante anos, formando o que conhecemos por “bolha imobiliária”.

Essa “bolha” acontece por conta dos preços aumentando de forma artificial, ou seja, o preço dos ativos não está associado aos seus valores reais de mercado, mas sim, custando muito mais do que realmente deveria ser, levando em conta o seu valor intrínseco de mercado para o momento.

Na época, os EUA criaram bancos públicos que tinham objetivo principal ter uma especialização voltada ao setor imobiliário, e para tal, o governo proporcionou medidas protecionistas a esses bancos, fazendo com que estes não estivessem tão expostos aos riscos que o próprio mercado imobiliário sempre possuiu.

Os preços dos imóveis começaram a aumentar devido a forma como esses bancos criados pelo governo garantiam, de forma primária, a liquidez do mercado imobiliário, através da compra de hipotecas de outros bancos.

Sendo assim, as dívidas de empréstimos imobiliários de pessoas físicas que estavam em outros bancos do país, passavam para estes bancos estatais, a fim de que estes que haviam feito inicialmente os empréstimos aos seus clientes, pudessem emprestar cada vez mais dinheiro, já que a dívida passou a não estar mais com eles e sim com o governo, através do uso de capital público e protecionismo ao crédito imobiliário.

Reação em cadeia

Esse ciclo começou a ocorrer cada vez mais, já que os bancos imobiliários estatais perceberam que poderiam vender esses títulos de crédito imobiliário para investidores, sejam eles pertencentes aos EUA ou estrangeiros.

Essa estratégia acabou inflando muito os preços do setor imobiliário, já que a liquidez do mercado se mantinha dessa forma, e os bancos convencionais, faziam cada vez mais empréstimos imobiliários, que por sua vez, vendiam aos bancos estatais, que vendiam aos investidores. Esses créditos imobiliários, são conhecidos como “subprimes”.

Essa linha permitia que o preço dos imóveis apenas subisse, sendo algo lucrativo em tese tanto para o governo dos EUA, quando para os investidores, que compraram a ideia de que o setor imobiliário apenas subiria o preço, logo, comprando hoje, a ideia era se beneficiar daqui um tempo, por meio do crescimento de valor do ativo.

Os bancos que faziam os empréstimos imobiliários, por sua vez, passaram por uma pressão cada vez maior por parte do governo, para que se realizasse empréstimos para cada vez mais pessoas.

No final das contas, os empréstimos imobiliários, ou seja, pessoas que emprestavam dinheiro colocando sua casa como garantia, acabaram se tornando tão acessíveis, que até pessoas que não tinham condições de pagar acabavam fazendo, tornando o crédito muito simples de ser aprovado.

Entretanto, a formação de uma bolha imobiliária estava se formando, ao passo que com o passar dos anos, novos acontecimentos foram acontecendo. Entre eles, o atentado de 11 de setembro, bastante memorável na história americana, e também a bolha da internet, aos quais foram 2 fatos que trouxeram problemas a economia dos EUA.

O governo americano acabou injetando cada vez mais dinheiro na economia e abaixando as taxas de juros do país a aproximadamente 1% ao ano, com medidas protetivas a crise formada por esses acontecimentos. Porém os bancos que faziam empréstimo imobiliário, acabaram por utilizar desse dinheiro cada vez maior em volume para fazer cada vez mais empréstimos, já que tinham esse protecionismo com aval do governo no setor.

A facilidade desses empréstimos para clientes, fizeram com que pessoas vendessem suas hipotecas, em troca de um dinheiro que usariam para consumo, ao passo que os preços dos imóveis dispararam e davam cada vez mais confiança de que as pessoas continuassem fazendo isso, já que tinham plena certeza de valorização de seus imóveis, independente de qualquer coisa.

O que vem fácil, vai fácil

A partir do momento que os empréstimos de fácil acesso no setor imobiliário ficaram atrelados ao consumo, e por consequência, o aumento da produção desses bens de consumo em geral, a bolha que era apenas no setor imobiliário, passou a se juntar a todos os demais setores da economia americana.

A recuperação das crises vividas pela economia dos EUA, permitiu que o governo aumentasse as taxas de juros de formas mais comuns do que as taxas até então estabelecidas perto de 1% ao ano. E foi aí, nesse aumento dos juros, que a bolha imobiliária e que agora envolvia todos os demais setores acabou estourando.

Pessoas que se utilizaram de empréstimos imobiliários para consumo, viram que o aumento de juros diminui a liquidez dos empréstimos e por consequência, os preços dos imóveis começaram a ficar estáveis, até começarem a cair totalmente.

Isso ocasionou no aumento intensivo da inadimplência desses empréstimos, que por sua vez, como tinham imóveis como garantia, esses bens ficavam com os bancos, mas desta vez, com um valor muito menor do que antes, já que viviam uma queda intensa até então, ficando abaixo do valor da hipoteca.

O problema disso tudo, é que a venda desses títulos para os investidores aos quais foram citados no início, foram também vendidos a bancos de diversos países do mundo. Sendo assim essa inadimplência por parte dos americanos estava estourando não só nos EUA, mas em todos os bancos e investidores que haviam comprado esses títulos.

Os bancos e investidores estrangeiros haviam comprado pacotes de hipoteca vendidos por bancos estatais americanos, que por sua vez, tinha o aval das agências que classificavam o risco dos investimentos nos EUA, que como estavam atreladas ao governo americano, venderam a ideia aos estrangeiros de que essas hipotecas eram investimentos de alta lucratividade e muita segurança, fazendo com que o mundo todo comprasse vários desses pacotes.

Essa bolha acabou então estourando pelos bancos, fundos e investidores em muitos países, que por sua vez, viam os preços dos imóveis derretendo e a alta inadimplência das hipotecas compradas não compensando o imóvel dado de garantia, nem mesmo o valor pago pela hipoteca. Foi só uma questão de tempo para que víssemos, num efeito avalanche, todas as consequências da crise de 2008.

Consequências da crise do “subprime”

As consequências da crise de 2008 foram devastadoras para diversas economias internacionais e trouxeram não só uma crise financeira, mas também meses de altas taxas de desemprego e instabilidade aos países. Na Europa, os países mais afetados pela crise foram Grécia, Portugal, Espanha, Itália e Irlanda, com destaque para a Grécia, que não se recuperou até os dias de hoje.

A primeira grande consequência, que levou aos demais efeitos, principalmente na bolsa de valores, foi o anúncio de falência de um dos grandes bancos de investimento dos EUA, o conhecido Lehman Brothers, no dia 15 de setembro de 2008.

Esse comunicado foi o estopim para uma queda incrível nas bolsas do mundo todo, que tiveram outras grandes quedas durante o passar dos meses, além de recessão econômica mundial, em meio a não só falências, mas também prejuízos que chegavam na casa dos bilhões vividos por diversos grandes bancos.

A bolsa de valores no Brasil e no mundo na crise

Os investidores brasileiros acabaram obrigatoriamente inseridos em todo esse cenário de crise que afetou o mundo todo, vivendo um dos piores anos para quem pensava em investir na renda variável.

O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, vivia ótimo momento em 2007, e teve um recorde na quantidade de negociações em maio de 2008. Nesse tempo, tinha uma euforia em relação a concessão de grau de investimento ao Brasil, que se juntava ao otimismo da valorização do Ibovespa do ano anterior. 

A concessão de grau de investimento, tornava com aval dos mercados internacionais, o Brasil como um país com uma alta confiabilidade para se investir, o que tornou possível uma alta histórica da bolsa brasileira.

Além disso, ainda tinha-se o aumento do preço do petróleo e de commodities, que tornaram possível a ascensão da Petrobrás, Vale e outras companhias conhecidas no cenário nacional.

A grande queda veio a partir de setembro, junto com as demais bolsas pelo mundo todo. O “circuit breaker” foi acionado 6 vezes entre setembro e outubro, que é um mecanismo de proteção da bolsa de valores que é acionado para paralisar as atividades e negociações assim que o índice atinge uma queda superior a 10%.

Os acúmulos de desvalorização ao longo do ano de 2008 para o Ibovespa foi de 41,22%, o segundo maior ano de queda da história da bolsa brasileira, ficando atrás somente do ano de 1972, onde os números foram de uma queda de 44,42%.

No dia 15 de setembro, que se instaurou o temor mundial com a quebra do banco americano Lehman Brothers, a queda foi a maior naquele ano, com 11,39% e ativação do “circuit breaker”, e no mês de outubro a queda foi de 24%. Vejamos como foi a queda do Ibovespa neste período de forma gráfica:

Como podemos ver, o crescimento vivido pelo índice brasileiro a partir de 2007, foi por água abaixo em meados de 2008, com o estouro da grande crise mundial, representada por um “buraco” no gráfico, que voltou a subir só em 2009.

Até tentou-se auxiliar o grande banco americano para evitar sua quebra, mas que acabou sendo inevitável, já que o banco inglês Barclays acabou não entrando em acordo de ajuda e os pacotes de ajuda governamentais não foram suficientes.

Nada evitou a grande queda vista pela bolsa, que foi a mais afetada de todas as áreas de investimento no Brasil. Os EUA, também em situação descontrolada na bolsa americana, injetou US$ 700 bilhões na economia, através de um pacote de ajuda, mas a medida tomada pelo presidente George W. Bush acabou não sendo prático na recuperação imediata

Outros países também fizeram medidas semelhantes de injetar dinheiro na economia, mas acabou que as consequências foram pouco evitadas. Nos EUA, principal índice da bolsa americana S&P 500 caiu 45% e o desemprego teve número superior a 10%. Cerca ¼ da renda das famílias nos EUA foi reduzida, trazendo um colapso em quase todas as áreas.

Essa queda de quase metade do valor no índice americano, pode ser facilmente visto de forma gráfica, onde fica bastante evidente o quão devastador foi o momento para os investidores:

É perceptível uma queda ainda maior que a vista pelo Ibovespa, já que as consequências dessa crise acabaram sendo ainda piores nos EUA do que no Brasil. Ao meio do gráfico, a descida quase em linha durante o ano de 2008, representou o grande pânico que foi aquele ano para o mercado financeiro e para os acionistas.

Conclusão

A crise do “subprime” de 2008 foi uma das maiores crises vividas pela história do mercado financeira e das economias mundiais até os dias de hoje. 

Ela ocorreu depois do estouro de uma bolha no setor imobiliário, que acabou trazendo consigo todo o setor de consumo, e uma quantidade muito grande de empréstimos realizados com poucos critérios de aprovação, o que tornaram a inadimplência uma das peças chave em toda a crise.

Ela afetou as economias do mundo todo, havendo um dos maiores períodos de quedas das bolsas de valores do mundo todo, inclusive no Brasil. 

Nesse ponto, apesar de grande aprendizado econômico para o mundo todo, a crise de 2008 acabou deixando marcas a diversos investidores, que acabaram perdendo boa parte de seu capital, alguns perdendo tudo que tinham, e famílias desempregadas que, assim como algumas economias por aí, não conseguiram até hoje retornar ao patamar anterior à crise.

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