João Vitor

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Trabalha como consultor financeiro, é estudante de Engenharia Química pela Unesp e escreve sobre temas relacionados a economia, finanças e investimento.

A bolsa de valores costuma apresentar dualidade de sentimentos para muitos investidores. Devido à variação e volatilidade do mercado que ocorre de tempos em tempos, frente a diversos acontecimentos da economia e política, muitos investidores, principalmente os mais experientes, já passaram por momentos de terror com a bolsa, assim como podem ter passado momentos muito bons.

Obviamente, que alguns momentos mais marcantes acabam sendo os períodos de baixa, grandes crises e acontecimentos isolados que resultam em grandes quedas do mercado, e que fazem com que o investidor até repense na sua forma de investir na bolsa até então.

Alguns momentos mais recentes de quedas marcantes da bolsa brasileira foram o Joesley Day, a queda da crise de 2008 logo após a falência do banco americano Lehman Brothers e a grande queda do ano de 2020, que ficou conhecido por conta da atual pandemia da Covid-19, o Corona day.

Apesar dessas quedas relevantes no mercado financeiro, você já deve ter se perguntado em algum momento se já tivemos altas semelhantes a essas grandes quedas, ou seja, de proporções parecidas? 

E a resposta é sim, mesmo que os períodos de baixa acabem se sobressaindo em relação às grandes altas brasileiras, tanto em repercussão quanto em quantidade de vezes ocorridas, é essencial conhecer que temos os dois lados da moeda. Afinal, qual teria sido o acontecimento que ocasionou a maior alta da história da bolsa de valores brasileira em um único dia? Para isso, é preciso entender primeiro alguns acontecimentos.

Contexto do Brasil até a década de 1990

Voltando aos anos de 1973, último ano marcado pela ditadura militar que se iniciou em 1968, a economia passava anos confortáveis na economia, ao qual havia-se uma inflação em queda e um PIB com altas muito relevantes até então.

Foram os anos conhecidos como “Milagre Econômico”, que foi introduzido pelo regime militar, que em troca conseguia manter a população acalmada de qualquer discordância as repressões oferecidas pelo mesmo.

Porém, todos esses anos de prosperidade e uma suposta excelente gestão governamental, eram financiadas por diversos empréstimos vindos das economias internacionais, ao passo que a dívida brasileira só crescia.

Com a crise do petróleo em 1973, ao qual a commodity era em sua maioria importada do exterior, a dívida brasileira internacional acabou disparando de vez, ao passo que a inflação sua de forma intensa e gradual ao longo dos anos.

Nem mesmo as políticas de José Sarney, que tanto se comprometeu com a resolução dessa crescente curva exponencial inflacionária, conseguiu solucionar todo esse problema, mesmo com a introdução do Plano Cruzado I e II, Plano Bresser e o Plano Verão.

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A inflação que já estava alta em 1985, com um número em torno de 242%, acabou explodindo de vez, chegando ao ano 1989 com a impressionante marca de 1972%. Vejamos como se deu a explosão da inflação brasileira nesse período pela representação gráfica do IPCA:

ipca brasil

Além disso, ainda podemos ver essa explosão por outro índice, considerando o IGP-M anual:

ipca sarney

Em 1990, Fernando Collor de Mello foi anunciado como o novo presidente do Brasil. Logo após isso, começaram de imediato novos planos para a economia, que viriam por trazer uma das maiores volatilidades do mercado brasileiro.

Plano Collor I: Período de terror da bolsa brasileira

O plano Collor em si, é o nome que se dá ao conjunto de medidas políticas e econômicas adotadas pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello, ao qual teve seu mandato durando de 1990 até 1992.

Essas medidas foram historicamente divididas em dois períodos distintos, conhecidos como Plano Collor I e II. Todas as condições econômicas ao qual o Brasil se encontrava até então com uma inflação descontrolada, foi o que motivava os pacotes econômicos no planejamento de Collor, que tinha como principal objetivo controlar novamente tudo isso.

As ideias de Collor e suas medidas, foram consideradas com um viés neoliberal e se iniciaram pouco tempo depois de sua posse. Collor não conseguiu atingir esse objetivo de controlar inflação, pois a mesma continuou descontrolada até 1994, com o plano real de Itamar Franco, que foi seu sucessor depois de seu impeachment em 1992.

O Plano Collor I foi uma série de medidas tomadas pelo governo Collor já no início de seu governo e causaram grande repercussão nacional e no mercado financeiro. Foi quando aconteceu o congelamento da poupança dos brasileiros que tinham mais de 50 mil cruzados novos guardados.

O conhecido “confisco” da poupança foi um dos acontecimentos mais conhecidos do governo de Collor e é relembrado até os dias de hoje por muitos brasileiros que viveram nessa época, que perderam muitas economias que haviam feito durante muito tempo de sua vida.

Além disso, Collor criou nesse período o IOF, que é o Imposto sobre Operações Financeiras. Esse imposto é utilizado até os dias de hoje, e é cobrado quando se realiza alguns tipos de operações de crédito, entre eles: Câmbio, títulos imobiliários, seguros e também empréstimos.

Uma série medidas que Collor também tomou nesse período foram:

  • Determinar o fim de subsídios estatais, nisso incluía demissão de funcionários públicos e fechamento de ministérios;
  • Privatização e fins de empresas estatais;
  • abertura do mercado brasileiro para o exterior;
  • tabelamento e controle das taxas de câmbio e dos preços.

Todas essas medidas criaram um pânico no mercado financeiro, que apresentou uma das suas piores quedas na bolsa de valores brasileira de sua história. No dia 19 de março de 1990, ocorreu o acontecimento do “confisco” das poupanças e os correntistas não conseguiam sacar mais de 50 mil cruzados novos.

O temor instaurado, causou a maior queda da bolsa de valores brasileira na história. No dia 20 de março de 1990, a bolsa despencou 20,97% e no dia seguinte, 21 de março, teve sua maior queda de 22,27%. O pessimismo tomou conta do mercado naquele ano de 1990, que acumulou baixa na bolsa de 74,11% durante o ano, um ano marcante na história do Ibovespa.

Importante observar que nesse período ainda não existia o circuit breaker, mecanismo criado em 1997, que tem por objetivo paralisar as atividades da bolsa por um tempo, assim que houver uma baixa que ultrapasse 10% no Ibovespa.

Além disso, os fatores tecnológicos da bolsa que existe hoje não existiam antigamente. Tudo era negociado no grito, telefonemas com ordem de compra e venda e um telão em que se passava as cotações. Comprava e vendia quem “gritava mais alto” e era formado pelo sistema de “pregão simultâneo”, nome que ficou conhecido na época.

Dessa forma, os dias 20 e 21 de março juntou todos os fatores possíveis para ser um dia de caos no pregão da bolsa de valores brasileira, com correria, muita gritaria e pavor, associados a muito dinheiro perdido por muitos investidores, que viram suas carteiras de ações derretendo naquele ano.

Plano Collor II: A maior alta da história do Ibovespa

Após o fracasso econômico do Plano Collor I, que não resistiu ao aumento da inflação logo após o primeiro mês de aplicação das medidas e acabou reduzindo os salários dos trabalhadores, foi colocado em prática um plano B, que foi o Plano Collor II.

O Plano Collor II, foram medidas anunciadas no dia 1º fevereiro de 1991. Esse plano incluía:

  • Fim das operações overnight, no qual se buscava obter lucro por meio de deixar na poupança em um dia e retirar no outro;
  • Congelamento de preços novamente;
  • criação de uma taxa de juros de referência, a conhecida TR;
  • Criação do Fundo de Aplicações Financeiras (FAF);

As novas medidas tomadas pelo ex-presidente, fizeram com que o mercado tivesse um período de otimismo bastante relevante e atraísse muito investimento estrangeiro, o que fez a bolsa de valores brasileira apresentar grandes altas em seus preços, até conseguir a maior marca de valorização de sua história de um único pregão.

Na semana que se iniciou no dia 25 de fevereiro até o dia 2 de março daquele ano, a bolsa brasileira começou a ter altas impressionantes seguidamente, sequencialmente de 11,96%, 6,18%, 6,12%, 8% e 3,40%.

Foi então que na segunda-feira, retomada do pregão da outra semana, que a bolsa deu um “boom”. No dia 4 de fevereiro de 1991, o Ibovespa teve sua maior alta da história, alcançando uma alta de 36,05% em um único dia. O otimismo foi marcado de forma histórica naquele período. Em apenas 6 dias de pregão, o índice brasileiro valorizou cerca de 71%.

Todos esses períodos de quedas em 1990 e alta em 1991, podem ser vistos no gráfico a seguir, que conta a história das variações da bolsa desde 1963:

Conclusão

O período de governo do ex-presidente Fernando Collor de Mello, acabou sendo um período bastante polêmico no cenário histórico da política brasileira. Na questão econômica, acabou não surtindo efeitos nenhum de seus dois planos, que ficaram conhecidos como Plano Collor I e II.

O período de hiperinflação só foi controlado com a introdução do plano real em 1994, na qual Collor já não estava mais no governo, pois sofreu impeachment em 1992. Muitos empresários e cidadãos acabaram se matando após os confiscos de poupança e as difíceis situações econômicas que o brasileiro passou na época.

Para a bolsa de valores, porém, pode-se dizer que foi uma montanha russa de emoções. Após acontecer em março de 1990 as duas maiores quedas diárias da história da bolsa de valores brasileira, superiores a 20% em um único dia, no ano seguinte, em 1991 tivemos a maior alta, de 36% num único pregão.

Foi um período muito controverso, já que alguns poucos investidores conseguiram aproveitar tanto a queda histórica quanto a alta histórica, podendo ter lucrado muito com isso, ao passo que muito acabaram quebrando totalmente e perdendo fortunas nessa “montanha russa” de cotações.

É uma época bastante marcante para a história da bolsa brasileira, e deixou diversas lições para quem investia na época, que acabou entendendo de fato a capacidade da bolsa de se volatilizar de forma tão agressiva, tendo a possibilidade de ver seu dinheiro render muito de um dia pro outro, como também despencar de forma dolorosa. Sendo assim, mostra-se que a bolsa de valores não é um lugar pra todos, e sim quem tenha conhecimento e experiência no que tange os conceitos de investimento em renda variável e que está emocionalmente preparado para momentos assim, para ambos os extremos.

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