João Belarmindo

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João Belarmindo. Graduando em administração pela UERJ, aficionado pelo mercado financeiro. Cobre assuntos como finanças pessoais, carreira, negócios e investimentos.

Dona das conhecidas marcas Pontofrio, Casas Bahia, Extra e da fabricante de móveis Bartira, a Via Varejo é a maior empresa de varejo de eletrônicos e móveis do Brasil. Contudo, esse título não significa que a empresa se encontra em situação financeira confortável, muito pelo contrário, a empresa está em processo de turnaround, buscando mudanças nos resultados, que por sua vez, não agradavam há bastante tempo.

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Os INDICADORES ASSUSTAVAM

Desde 2017, durante a gestão do Grupo Pão de Açúcar, os números apresentados mostram que a empresa estava se encaminhando, aos poucos, para fundo do poço.

De 2017 a 2019, os problemas da empresa aumentaram. O gráfico abaixo mostra que a margem bruta da empresa declinou consideravelmente, saindo de quase 34% para aproximadamente 28%. Porém, podemos ver que a partir do 4T19, há uma ligeira melhorar no indicador, chegando próximo dos 29,5%.

margem bruta vvar
Fonte: Economatica / Suno Research

Como houve perda de margem, o lucro líquido também apresentou queda, principalmente em 2019, fechando o ano com cerca de R$ 1,43 bilhão de prejuízo líquido.

via varejo turnaround
Fonte: TradingView

 

Para aqueles que olharam a empresa em 2019, no auge de sua crise, dificilmente conseguiriam ver uma luz no fim do túnel. Contudo, o processo de turnaround se deu ali, em meio ao caos instaurado, muito pela má gestão dos controladores que tinham experiência de varejo, mas o foco era alimentício. A partir de julho de 2019, a mudança se iniciou, começando por sua gestão. 

SAI GRUPO PÃO DE AÇÚCAR, ENTRA FAMÍLIA KLEIN

Desde 2016, o Grupo Pão de Açúcar tentava vender sua participação na Via Varejo para focar no varejo de alimentos. Contudo, o processo de venda só foi concretizado em junho de 2019, movimentando cerca de R$ 2,3 bilhões.

A compra foi feita por Michael Klein e sua família. Com isso, o comando das Casas Bahia voltou para a família fundadora da rede e o empresário Michael Klein, à linha de frente do varejo a quase 10 anos após a fusão de Casas Bahia e Ponto Frio.

A notícia foi muito bem recebida pelo mercado financeiro e não demorou muito para que a informação influenciasse na cotação da ação, no mês de julho, os papéis acumularam valorização de mais de 30%. Todavia, embora o controle da empresa tivesse mudado, a casa ainda estava bagunçada e caso não organizassem, dificilmente a empresa voltaria aos patamares de 2013/14, quando era líder do varejo nacional.

COLOCANDO ORDEM NA CASA

No final de 2019, o compliance da companhia recebeu uma denúncia sobre possíveis práticas ilícitas de executivos da empresa. Logo depois do recebimento, a varejista contratou advogados e auditores para auxiliar na investigação, dado a riqueza dos detalhes das operações que a denúncia continha. De fato haviam irregularidades, que juntas somavam cerca de R$ 1,6 bilhão em prejuízos para a companhia. 

Como consequência, houve reação das ações de ainda VVAR3, que estavam cotadas a R$11,20 e encerraram o pregão a R$ 10 reais. Essa queda de 1,20 no preço da VVAR3 equivale a uma perda de valor de mercado próxima ao 1,6 bilhão de reais. Em tese, os efeitos das inconsistências contábeis já estariam no preço.

A investigação foi concluída em março de 2020. Contudo, esse episódio já demonstrou que a nova gestão entrava no comando para reformular toda a companhia.

VARA É TECH

A influência da pandemia fez com que as lojas físicas fechassem e percebendo que o e-commerce é o futuro (agora o presente) do varejo e observando suas concorrentes de setor, Magazine Luiza (MGLU3) e Lojas Americanas, darem passos longos no avanço do varejo digital, a Via Varejo viu que ficaria para trás se não agisse rapidamente para transformar o seu business para o foco digital.

Com isso, a companhia fez a compra de 100% da startup especializada em comércio eletrônico para o varejo i9XP, buscando acelerar a entrada de novos vendedores em seu marketplace. Uma característica da i9XP é o seu quadro de funcionários: dos 155 colaboradores, 120 são desenvolvedores, o que já fortifica a estratégia da nova gestão de fazer uma transformação digital na companhia.

Além da compra da i9XP, a companhia também adquiriu 16,67% do capital da Growth Partners, empresa que detém o controle do ecossistema de inovação aberta Distrito. Segundo o CEO da empresa, Roberto Fulcherberguer, “É um ganha, ganha”, pois a Via Varejo terá à disposição várias startups, de diversos setores, já do outro lado esses empreendedores poderão contar com um contingente de 85 milhões de clientes para testar suas soluções.

Já na parte de logística tecnológica, houve a aquisição da AsapLog, uma empresa especializada em soluções para logística urbana e capaz de ligar transportadoras em longas distâncias.

Saindo das aquisições, a Via Varejo tomou a iniciativa de criar o BanQi, uma carteira digital, que possibilita o pagamento de contas, depósitos, saques nas lojas, entre outras funcionalidades. Isso mostra que a empresa está se empenhando para entrar firme nessa era digital.

OS FRUTOS COMEÇAM A APARECER

No tão aguardado 3T20, publicado recentemente, os destaques foram as vendas online. Com um GMV total de R$ 10 bilhões, 41% foram no canal online, um aumento de 22,6 p.p. Na mesma linha das vendas online, a empresa apresentou um crescimento de 294,1% no 1P (R$ 3,3 bilhões) e crescimento de 83,4% no 3P (R$ 849 milhões), na comparação com o 3T19, conforme mostra a tabela abaixo.

resultado via varejo
Fonte: Resultado 3t20 – VVar3

Vale destacar o número de aberturas de contas no BanQi, que hoje conta com pouco mais de 1 milhão de contas, com cerca de 430 mil clientes considerados ativos. O acompanhamento do crescimento de aberturas de contas é importante, pois serve como um termômetro para saber a captação e o empenho da empresa na busca por novos clientes.

É inegável que a nova gestão aparenta estar fazendo o dever de casa. Contudo, vale ressaltar que nem tudo são flores, já que a empresa ainda possui uma dívida elevada e ampla concorrência disputando market share.

CONCLUSÃO

Olhando para dentro da companhia, vemos uma bomba foi estourada lá dentro, fazendo com que os resultados levassem a empresa ao fundo do poço, atrasando-a frente as concorrentes na corrida digital, que se mostra como o futuro do varejo. No entanto, é satisfatório ver que a gestão com a família Klein de volta, mostra a cada trimestre que eles estão buscando reverter o quadro grave que a empresa se encontrava.

A empresa vem demonstrando crescimento ao longo do tempo, prova disso é o ganho de margem EBITDA (indicador que apresenta de forma clara a lucratividade operacional de um negócio), pelo quarto trimestre seguido. Além disso a empresa foi capaz reverter prejuízo líquido de R$ 346 milhões no mesmo período do ano passado, no terceiro trimestre de 2020. 

A empresa investiu R$ 110 milhões no terceiro trimestre de 2020, como resultado a receita líquida atingiu R$ 7,812 bilhões no período, um aumento de 37,3% em relação ao mesmo período de 2019 e seu lucro bruto cresceu 62,5% no terceiro trimestre de 2020, atingindo R$ 2,8 bilhões.

Hoje é inegável que a Via Varejo é muito mais dinâmica e competitiva que sua antiga versão os anos anteriores. Apesar dos efeitos negativos do fechamento de lojas durante a pandemia, os resultados da Via Varejo se mostram positivos. Na perspectiva do mercado, a Via Varejo é precificada a aproximadamente 18% do valor de mercado de Magazine Luiza e 68,5% de B2W.

Alguns meses atrás, a empresa era questionada quando a viabilidade de sobrevivência balanço em relação a alta dívida e com quase 100% das suas lojas físicas fechadas. Hoje Via Varejo vem conquistando seu espaço no e-commerce, se preparando cada vez mais para enfrentar a nova realidade, reformulando seu modelo de negócio em virtude do novo padrão de consumo pós-quarentena.

Seria o V da vitória de um dos cases mais famosos da bolsa? O futuro com certeza nos dirá. 

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