Nos EUA 65% estão na bolsa, no Brasil 66% ainda tem dívidas

No Brasil, a ideia de se investir na renda variável, em especial, na bolsa de valores, apesar de ainda bem iniciante, tem ganhado cada vez mais espaço no cenário brasileiro.

O número de investidores na bolsa brasileira tem aumentado fortemente no ano de 2020. Alguns associam ao fato de que a pandemia e o desemprego trouxe o desejo pela busca de outras formas de lucros que pudessem ser realizados, frente à queda das taxas de juros e de investimentos de renda fixa. A

Dessa forma, a bolsa de valores pôde ser uma alternativa de se conseguir uma renda nesse sentido, através da compra e venda de ativos, independente da estratégia adotada, de curto, médio e também longo prazo.

Entretanto, o fato é que o aumento anual do número de investidores cresceu percentualmente muito parecido no ano de 2019 e 2020, o que mostra que o interesse dos brasileiros na bolsa de valores já vinha aumentando fortemente antes da pandemia. 

No final de 2017, o número de investidores nesse meio era em torno de 620 mil. Em 2018, esse número cresceu cerca de 31%, para 813 mil. A partir do ano de 2019, a taxa de crescimento de investidores na bolsa de valores cresceu cerca de 97%, e chegou ao número 1,6 milhão.

Em 2020, foi o ano que o número de investidores passou de 1,6 milhão para 3,17 milhões, o que seria equivalente a um aumento de 98%. Com isso, esses números começam a mostrar sinais do início de um avanço promissor da renda variável no país.

Veja também: Nova greve dos caminhoneiros pode ser pior que a de 2018, diz ANBT

Esse crescimento exponencial do número de investidores na bolsa brasileira pode ser visto a seguir, embora os dados do gráfico estejam atualizados até agosto de 2020.

número de investidores bolsa brasileira

O que explica o avanço da bolsa de valores no Brasil?

Para entender os motivos que levaram os investidores a maior aptidão ao risco, primeiramente é preciso se perguntar: por que os brasileiros não investiam até então na Bolsa de Valores?

Historicamente, a educação financeira no Brasil não foi tão explorada a fundo. Frente a isso, nunca foi uma questão de cultura dos brasileiros o ato de guardar dinheiro, e não estou aqui falando de famílias mais humildes com baixos rendimentos mensais.

O que se trata aqui, é que pessoas que mesmo com a possibilidade na mão de poder guardar dinheiro, acabam optando por seguir os costumes brasileiros ligados ao consumo excessivo, que vão muitas vezes além dos próprios ganhos.

Isso pode ser visto através da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) realizada em dezembro de 2020, que mostrou que 66,3% dos consumidores ainda estão endividados, uma alta de 0,7 ponto percentual durante o último ano. 

Sabemos, porém, que o primeiro passo para que se possa guardar dinheiro, e por sua vez, investir, é necessário que a saúde financeira dessas pessoas também esteja em bom estado, o que não acontece com a maioria dos brasileiros.

A consciência financeira tem ganhado espaço no cenário brasileiro, e embora bastante lenta, ela vem se desenvolvendo no Brasil, principalmente em um ano tão difícil e que fomentou a realidade do desemprego e da inflação.

Além dessas questões ligadas a dificuldade de ter poupança de ganhos, o brasileiro se acostumou com um histórico de juros altos no Brasil, que gradativamente vem diminuindo, até atingir em agosto de 2020 a sua baixa histórica, de 2%, que vem até o momento permanecendo no mesmo patamar.

Com isso, a renda fixa passou a ser uma opção não tão rentável para o brasileiro, e assim, voltamos ao que dissemos logo no início, de que a bolsa brasileira acabou atraindo a atenção de cada vez mais pessoas, que estão em busca de rentabilidades maiores e que em outros anos, ainda podiam ter ganhos com a própria renda fixa, ao passo que o risco é bem menor que a renda variável.

Um último fator que não favorecia a presença de mais pessoas na bolsa de valores, é justamente que pela baixa quantidade de empresas disponíveis para investir, cerca de 400, acabava-se favorecendo mais os bancos no Brasil, propriamente dito, do que os investidores, com uma menor diversidade para que o investidor possa colocar o seu dinheiro, alimentando esta “cultura dos bancos” no país.

Dessa forma, o avanço (apesar de lento) da educação financeira no Brasil aliado a baixa dos juros, têm feito o número investidores dispostos a correr mais riscos aumentar da forma que vimos até então. Mas é o suficiente?

Bolsa de valores: Brasil x EUA

Obviamente que uma comparação com a maior economia não se esperava menos de que os dados ligados à renda variável fossem menores no Brasil, entretanto, quando aproximamos os dois países nesse sentido, percebemos que o cenário vai muito além do que apenas alguma diferença.

Os dados expõem o quanto o Brasil ainda está atrasado em relação aos países de primeiro mundo, mesmo com todos os números otimistas que apresentamos anteriormente. Enquanto nos EUA, cerca de 65% da população investe na bolsa de valores, essa parcela aqui no Brasil não chega a 1,5%.

O único número que temos no Brasil que acaba se comparando com a parcela de pessoas investindo na bolsa nos EUA é o de endividados no Brasil, que ironicamente é de pouco mais de 66%.

A diversificação para se investir no Brasil também é pequena, já que enquanto aqui o número de empresas na bolsa é de aproximadamente 400, nos EUA esse número ultrapassa os 7000.

Em termos de valor de mercado, a comparação fica ainda mais complicada. Nos EUA, as companhias somadas resultam em um valor de US$38,5 trilhões, e no Brasil esse número é de apenas US$701 bilhões.

Para se ter uma ideia de como o valor de mercado das empresas no Brasil são ínfimas perto da realidade dos EUA, apenas a Apple tem um valor de aproximadamente US$2,2 trilhões, mais de 3 vezes o de todas as empresas brasileiras na bolsa.

Para quem pensa que essas comparações não querem dizer nada para a economia do país, está tremendamente enganado. O número de pessoas investindo na bolsa é muito importante para qualquer cenário econômico que possuímos.

A bolsa propõe que mais pessoas invistam nos empreendimentos brasileiros, o que faz com que os setores diversificados no Brasil possam se desenvolver, atrair cada vez mais capital estrangeiro também, e assim, valorizar a moeda brasileira, por meio de uma economia menos dependente de produtos e serviços de fora, o que também favorece a redução dos custos de vida da própria população.

Conclusão

Os números na comparação da primeira economia do mundo, que é os EUA, com o Brasil, acaba trazendo uma realidade de que a bolsa brasileira acaba sendo extremamente iniciante por aqui, embora se tenha a possibilidade de ainda ser muito promissora.

O fato é que a dificuldade no Brasil quanto a isso não está relacionado a apenas um fator isolado, mas a um conjunto deles. O fator de instabilidade política, atrelado ao lento avanço da educação financeira de sua população, faz com que essa realidade esteja muito longe de acabar.

A própria saída da Ford do país recentemente, expõe que é preciso reformas, o que inclui a necessidade de uma diminuição no custo-Brasil, ou seja, o quão caro é para que essas empresas possam aumentar sua capacidade de empreender no país, não só as que vem de outras países, mas também das que já são daqui.

Além disso, é preciso medidas que possam diminuir a burocracia que empresas enfrentam no Brasil, que associado a um alto custo de manter as portas abertas, acabam apresentando grande dificuldade de continuar seu crescimento a longo prazo, o que reflete também na bolsa de valores como vimos durante toda esta leitura.

Veja também: O que esperar dos bancos neste ano de 2021?

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