Enquanto as pessoas cancelam seus eventos e grandes pedidos de flores, os leilões de flores na Holanda e os campos de flores em Kenyan sofrem. 

Texto escrito por Zeke Faux, David Herbling, and Ruben Munsterman e publicado originalmente em inglês na Bloomberg.

Quando Meredith Dean imaginou seu casamento em maio, queria seus convidados andando em um corredor de flores selvagens. As damas de honra carregariam buquês, os padrinhos usariam arranjos na camisa e um círculo de flores estaria em volta dela e de seu marido enquanto falavam seus votos. 

Uma parede de flores serviria de fundo para as fotos. Vasos de botões de flores estariam no centro das longas mesas de jantar em um celeiro nas montanhas Catskills, em Nova Iorque. Mais flores estavam penduradas em cima da pista de dança. 

Dean tinha escolhido essa data porque as floradas da primavera estariam acontecendo, trazendo o amarelo vivo dos narcisos, os roxos aromáticos dos jacintos, as vistosas peônias, as hortênsias e, claro, as rosas. Ela não tinha um orçamento ainda, deixando tudo para a designer decidir quantas flores pedir. “Seriam muitas” ela afirma. 

Quando os casos de Covid-19 foram aparecendo no início de março, Dean, de 29 anos, que trabalha em desenvolvimento no Museu de Arte Moderna em Manhattan, olhava as notícias constantemente. Quando as autoridades avisaram sobre adiar os eventos com mais de 250 convidados, os colegas dela falaram para não se preocupar – faltavam meses para o casamento. 

E então, no dia 15 de março, o Centro de Controle de Doenças e Prevenções disseram que os americanos deveriam evitar aglomerações com mais de 50 pessoas nas próximas 8 semanas. O casamento da Dean aconteceria em 7 semanas, e ela teria 100 convidados. 

Não tinha muito o que ela e seu noivo, David Bradley, pesquisador de uma indústria farmacêutica discutirem. Nenhum deles colocaria seus amigos e famílias em risco. No dia seguinte, enquanto trabalhava de casa, Dean ligou para os organizadores do casamento e disse que queria adiar a celebração. Ela estava calma na ligação, mas quando desligou, começou a chorar. “Não tenho vergonha de me sentir assim”, ela afirmou. 

Adiar um casamento não é um desastre durante uma pandemia que está matando milhares de pessoas, como Dean já sabia. Mas em estufas, dos vales do Equador e Colômbia até as encostas do lago Naivasha, produtores já estavam estocando rosas nas pilhas de adubo. 

Dentro de poucos dias de isolamento nos Estados Unidos e Europa, com os eventos cancelados, restaurantes fechados e escritórios interditados, as demandas por botões evaporaram. 

A queda do mercado global de flores de US$ 8,5 bilhões mostra o quão rápido e unicamente o novo coronavírus está quebrando as cadeias de fornecimento, mesmo em locais que ele ainda não atingiu. 

Apenas algumas semanas depois do início da quarentena, os fazendeiros de Vermont estão jogando fora leite por causa dos cancelamentos dos pedidos das escolas. Hortas estão apodrecendo na Europa porque as fronteiras fechadas não deixam os imigrantes trabalharem e colherem nelas. 

O preço das asas de frango nos EUA caíram drasticamente enquanto antes, estavam em um super boom de crescimento. Na Índia, fazendeiros estão vendendo uvas por ⅙ do seu preço normal. É uma pergunta se, quando os consumidores voltarem a comprar, seus fornecedores ainda estarão por perto para vender para eles. 

Uma das primeiras pessoas que Dean enviou mensagem depois de ter adiado a data de seu casamento foi a designer de flores, Laura Clare, que trabalha no primeiro andar de um prédio de tijolos cinzas e detalhes brancos em Bernardsville, N.J. Clare, que está no mercado por 20 anos, vende buquês durante a semana e, nos finais de semana, ela projeta arranjos para grandes eventos. Seus clientes de casamentos gastam entre US$ 5,000 e US$ 10,000. 

Dean foi uma das primeiras noivas a entrar em contato com Clare depois das recomendações de isolamento. Dentro de alguns dias, todos os clientes da Clare de abril estavam procurando datas para o outono. 

Ela teve que dizer para algumas clientes que, algumas flores, como as das cerejeiras, podem não estar disponíveis na data. Logo, quando o número de casos de Covid-19 passou de 1.000 em Nova Jersey, o governador ordenou que só serviços essenciais deveriam ficar abertos. Os floristas não entraram na lista. 

Com seu estoque estragando, Clare começou a dar seus buquês, entregando para a comunidade da igreja local. Ela liberou seus 5 empregados e cancelou seus pedidos, que somam pelo menos US$ 5,000 por semana. 

Ela está pedindo o empréstimo para pequenos negócios, para colocar seus funcionários de volta no contra-cheque. “Eu passei pelo 11 de setembro”, Clare afirma. “Já passei pelo furacão Irene e Sandy. Mas nunca vi nada como isso antes.”

Flores geralmente são pedidas com duas semanas de antecedência, então, Clare não havia pedido as flores para o casamento da Dean ainda. Mas ela estava planejando pedir algumas flores raras de um leilão na Holanda. Mais de 40% das flores do mundo passam nessas casas de leilões.

O mercado de flores é um milagre do capitalismo moderno. Uma cadeia de refrigeradores que se inicia com a colheita das hastes em lugares como África, Oriente Médio e América do Sul, depois carregadas por caminhões refrigerados, depois por aviões refrigerados e pousam em Amsterdam para serem leiloados. 

Depois, são reembaladas em mais caminhões ou aviões refrigerados e entregues para os supermercados, floristas e bouquets de noivas por toda a Ásia, Europa e Estados Unidos. 

Os leilões são organizados por uma cooperativa, a Royal FloraHolland, formada a mais de um século por um grupo de floristas que se conheceram em um bar e criaram um sistema para ter mais controle sobre como suas flores eram vendidas. 

A Royal FloraHolland  tem 4 sites de leilão para dar conta da demanda do mercado global. Sua sede é em Aalsmeer, em um galpão de concreto maior que 75 campos de futebol, um dos maiores prédios da Europa. 

Todo dia antes do amanhecer, os trabalhadores enchem o lugar com crisântemos, rosas e tulipas. Compradores se reúnem em quartos cheios de telas de computador, onde as fotos de cada lote são mostradas. O pedido de Clare provavelmente teria ido para lá. 

As flores são vendidas pelo sistema tradicional de leilão holandês, em que os preços começam altos e vão abaixando com o tempo. O primeiro comprador a dar o lance ganha. A medida que os lotes vão sendo comprados, tratores puxam vagões cheios de flores de um lado do galpão para o outro. Um dia normal tem mais de 100.000 transações. A maioria das flores fica na Europa, chegando no destino em menos de 12 horas. 

A primavera normalmente é uma época de muitas vendas, com casamentos, Dia das Mães e Páscoa. E nos primeiros dias de março, mesmo com a Holanda reportando os primeiros casos de coronavírus, os leilões aconteceram normalmente. Mas, depois que a Itália entrou em quarentena, a França ordenou que os comércios não essenciais fechassem e a Alemanha cancelou a maioria dos eventos, portanto, o mercado entrou em colapso. 

16 de março, mesmo dia em que Dean suspendeu seu casamento, foi o “dia mais sombrio” nos leilões, diz Fred van Tol, Gerente de vendas internacionais do Royal FloraHolland. 

Produtores estavam ligando para ele em pânico. “Essas ligações são difíceis”, ele afirma. “O trabalho de suas vidas está prestes a implodir.”

O preço das rosas caíram para € 0,07 por botão, 70% menos do que no ano anterior. Os comerciantes sofriam para fazer qualquer negócio. Ao lado do galpão, os trabalhadores jogaram fora enormes volumes de buquês e vasos. A casa de leilão só poderia normalizar os preços se tivesse só 30% do nível do ano anterior.

Em tempos normais, Dave van der Meer, que tem sua própria exportadora de flores, acordaria às 4:30 para começar seu dia no galpão. Ele anda por aquelas flores por quase todos os seus 50 anos, desde que era uma criança visitando o trabalho de seu pai. O leilão agora estava quieto. 

“Você pode disparar um canhão no galpão e não acertará ninguém”, diz. Royal FloraHolland pediu para que os compradores fizessem lances dos computadores de suas casas, se possível. Com os preços tão baixos e com voos restritos, muitos produtores pararam de enviar as flores. A cooperativa estima que as perdas serão de mais de US$ 2 bilhões. 

Van der Meer diz que levou uma semana e meia para destruir todas as flores não vendidas em Naaldwijk. Mesmo com tamanho desperdício, os floristas holandeses que normalmente doam milhares de flores para a missa de Páscoa do Papa, decidiram não enviar nenhuma esse ano, para proteger os voluntários. O Papa normalmente reza a liturgia fora da Basílica de São Pedro, cercado por 30 toneladas de flores e 80 mil pessoas. 

Antes da pandemia, 42 voos de carga que chegavam no galpão vinham do Quênia, cujo clima permite que as rosas cresçam durante todo o ano. As nações do leste da África enviam cerca de US$ 1 bilhão em flores por ano, sendo o maior fornecedor da Europa. Esse valor representa um crescimento de 10 vezes desde os anos 90, por causa dos investimentos feitos em infraestrutura. 

Mais de 150.000 pessoas trabalham nas fazendas de flores do Quênia, muitas delas mulheres. O trabalho é extenuante, com longos turnos em casas cheias de vapor e ganham US$ 70 por mês. Mas é uma fonte de renda estável em um país onde isso é raro. 

Billy Coulson emprega 1.200 pessoas na Mini Flowers, umas das várias fazendas em um vale no norte de Nairobi. Às vezes, girafas andam perto de suas 50 estufas, das quais ele normalmente exporta 2,2 milhões de botões toda semana. Ele oferece nove tipos de rodas, rosa e laranja, amarelo e vermelho. Vendendo principalmente para grandes redes de supermercado da Europa, como Morrisons. 

flores-estufa-rosa
Estufa de rosas

Coulson, de 56 anos, cresceu no Reino Unido e foi trabalhar para os fazendeiros do Quênia depois de servir no exército britânico. Ele mora no local com sua esposa e seus três filhos. 

Os negócios estavam fortes em fevereiro, ele disse. Seus primeiros cancelamentos vieram no início de março, mesmo antes do Quênia ter visto seu primeiro caso de Covid-19. “Nós sabíamos que tinha um problema na China”, diz. “Não tínhamos ideia do tamanho.” No meio do mês suas vendas já tinham caído mais da metade. 

Seus custos, entretanto, não caíram. Ele ainda tem que comprar produtos, fertilizantes, água e pagar seus funcionários para colherem as flores, cortarem e as empilharem para jogarem fora. Ele dispensou seus empregados por meio período. Estima perder € 300,000 por mês, uma destruição bem maior do que a violência e crise do Quênia. “É um buraco negro”, ele afirma. “Se continuar assim por três ou quatro meses, teremos que fechar.”

Dean remarcou seu casamento para dia 15 de agosto, escolhendo entre Junho (muito perto) e Outubro (muito perto das eleições dos Estados Unidos). Seu local, fotógrafo e designer puderam mudar, mas o DJ tinha outro evento marcado. 

Ela está pouco otimista de que se casará em agosto. Nova Jersey é um foco do coronavírus com mais de 2.300 mortes. Mesmo com alguns negócios abrindo em breve, ela não sabe se eu casamento será permitido. 

O coronavírus também está se espalhando para o Quênia agora. O presidente Uhuru Kenyatta isolou a maior parte do país no dia 6 de abril. No Equador, outro grande exportador de flores, hospitais e funerárias estão com altas demandas. 

Dean diz que é grata por sua designer de flores, Clare por poder atendê-la em agosto. Mas ela não sabe se ela vai poder importar assim que os negócios abrirem. A visão de Dean para as flores do seu casamento acabou. “Elas ainda serão lindas, mas eu sei como elas poderiam ter sido.”

Write A Comment