Lucas Bassotto

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Economista, trader e especialista em conteúdo sobre economia, finanças e criptomoedas.

Até os anos 90, a Bolsa de Valores tinha pouca tecnologia aplicada aos seus processos. Quase todas as tarefas ainda eram manuais: preenchimento de ordens de negociação (boletas), planilhas impressas preenchidas a lápis, livro de ofertas no quadro negro, rumores mudando humor dos investidores e toda aquela gritaria que vimos nas TVs.

Michael Bloomberg foi um dos primeiros a mudar essa história. Ao sair da Salomon Brothers com US$ 10 milhões no bolso, fundou a empresa que seria a Bloomberg e mudaria completamente a forma de se obter informações no mercado financeiro. 

Michael criou os terminais Bloomberg, utilizados até hoje por todas as pessoas que trabalham com mercado financeiro. O terminal fornece notícias e cotações em tempo real e a possibilidade de fazer trades. Hoje, basta apertar algumas teclas para se manter informado sobre quase todos os mercados do mundo.

Com o sucesso de seu produto, Bloomberg mudou a história do mercado financeiro e se tornou um dos homens mais ricos do mundo. Atualmente, Bloomberg está se dedicando à política. Já foi prefeito de Nova York em três mandatos (2003 a 2012) e agora empreende uma candidatura para derrotar Donald Trump.

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A história de Michael Bloomberg

Bloomberg não nasceu em berço de Ouro. Começou sua vida em uma família de classe-média na costa leste dos EUA. Sua mãe era secretária e seu pai trabalhava em uma loja de laticínios. Seus pais investiram suas economias para bancar a faculdade, assim como faziam quase todas as famílias americanas.

Bloomberg entrou na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore. Durante esse tempo, sua família passou por dificuldades financeiras. Para conseguir se formar, Michael fez alguns bicos, incluindo trabalhar em um estacionamento para pagar seu empréstimo estudantil. Apesar das dificuldades, conseguiu se formar em Engenharia Elétrica.

Mesmo após tantos anos de sua formatura, Bloomberg ainda é bem ativo. Já doou mais de US$ 3 bilhões para a universidade em que se formou. Dessa fortuna, US$ 1,8 bilhões foram doados para ajudar a financiar os melhores estudantes, sem discriminar a capacidade financeira.

Depois de se formar, surgiu uma oportunidade em Wall Street, um emprego no banco Salomon Brothers. Essa foi a virada de chave que mudou para sempre a vida de Bloomberg.

Começo duro no porão de Wall Street

Quem é formado em universidades de prestígio como Harvard, por exemplo, começa um pouco acima nas principais empresas de Wall Street, ganhando bem como Trainee ou Júnior. Esse não foi o caso de Michael, que começou trabalhando no porão da Salomon Brothers, contando manualmente os papéis de ativos sob custódia.

Ainda assim, o começo difícil não conseguiu o abalar. Em 1 ano, conseguiu ser promovido para uma mesa de operações, que é onde geralmente começa quem vem de Harvard. Bloomberg estava sendo treinado para negociar grandes quantidades de papéis, como um operador.

michael bloomberg na IMS
Bloomberg com seus primeiros terminais feitos na IMS.

Bloomberg chegava no trabalho às 7 horas da manhã e era um dos últimos a ir embora, em uma rotina bem intensa. Com isso, conseguiu subir rapidamente de posição dentro da empresa, embora seu objetivo fosse ficar por pouco tempo até conseguir algo na indústria.

Aos 31 anos, Bloomberg consegue se tornar sócio da Salomon Brothers. Ele ficou responsável pela área de trading e desenvolvimento de softwares, área em que se destacaria mais tarde em sua futura empresa: Innovative Market Systems, que mais tarde se tornaria a Bloomberg.

Apesar de tudo estar indo bem, sua carreira na Salomon Brothers terminou em 1981, 9 anos após se tornar sócio. O banco tinha sido comprado pela Phibro. Em uma guerra política dentro da empresa, Bloomberg foi demitido e saiu com um cheque de US$ 10 milhões em mãos, dinheiro usado para criar a IMS.

O começo da Bloomberg

Nos anos 80, o mercado financeiro era aquele retratado nos filmes antigos sobre Wall Street: operadores ligados, caos, gritaria e um monte de papelada. Diante disso, Bloomberg acreditava que poderia ganhar bastante dinheiro, pois bancos, gestores e traders estariam dispostos a pagar caro para ter acesso a uma informação de qualidade em tempo real.

Com isso, a Innovatime Market Systems passou a crescer, com uma equipe formada por Bloomberg e seus colegas que trabalhavam na Salomon Brothers. O ponto de virada veio quando a IMS conseguiu seu primeiro grande cliente: o Merryl Lynch.

Tudo de forma inusitada: Bloomberg circulava nos corredores da empresa oferecendo cafés para os funcionários, até conseguir marcar uma reunião de negócios, tática que funcionou em 1983. O Merryl Lynch havia desembolsado US$ 30 milhões para financiar o desenvolvimento do software, ficando com 30% da fatia.

O investimento foi essencial para desenvolver o famoso Terminal Bloomberg, que passou a ser utilizado em larga escala, introduzindo tecnologia e mais eficiência de informação para o mercado financeiro.

terminais bloomberg
O famoso Terminal Bloomber, comum em mesas de operação.

A criação de um império

Com um produto inovador, a empresa abandonou o nome de Innovative Market Systems e passou a usar o sobrenome de Michael. A Bloomberg já estava instalada em mais de 6 mil clientes: bancos, fundos, gestores e operadores de mesa. O terminal foi se desenvolvendo e ganhando mais notoriedade.

Em 1993, a Bloomberg já tinha um canal de TV e um portal de notícias para informação em tempo real. Hoje, o portal é um dos mais acessados do mundo, fornecendo notícias e análises de alta qualidade. Só o Terminal Bloomberg tem mais de 320 mil assinantes pagando US$ 24 mil anuais, o que dá cerca de US$ 7 bilhões de faturamento no ano só com esse produto.

No ano de 1996, a empresa já estava avaliada em US$ 2 bilhões, quando comprou de volta 10% da participação da Merryl Lynch por US$ 200 milhões. A Bloomberg continuou avançando com crescimento rápido, desenvolvimento de soluções próprias e principalmente aquisições de soluções que já estavam prontas. 

As aquisições da Bloomberg foram estratégicas e voltadas para áreas de dados e tecnologia. Em 2009, compraram a revista Business Week, também chegaram a comprar uma área inteira de índices do Barclays por US$ 787 milhões. 

Com a crise de 2008, a Merryl Lynch vendeu seus 20% de participação na Bloomberg por US$ 4,43 bilhões, a um valuation de US$ 22,5 bilhões. Com isso, a empresa ficou sob o controle de Michael Bloomberg, que hoje tem 80% de participação. 

Diante do sucesso nos anos 90, começando a década de 2000 com a empresa bem encaminhada, Michael Bloomberg se afasta da empresa para dar início à sua vida política, que é onde tem mais notoriedade.

O homem para derrotar Trump?

Michael Bloomberg começou sua trajetória se candidatando a prefeito de Nova York pelo partido Republicano. Sua campanha foi caracterizada pelo alto orçamento, extremamente desigual em comparação aos outros candidatos. Michael gastou US$ 70 milhões de sua fortuna pessoal na primeira campanha, ganhando com uma margem apertada.

bloomberg e trump
Trump e Bloomberg, possíveis rivais nas eleições presidenciais americanas.

Foi prefeito de três mandatos, gastando cada vez mais dinheiro em suas campanhas. A maior vitória veio na reeleição, com mais de 20 pontos de diferença em relação ao segundo colocado. No terceiro mandato, a vitória foi bem mais apertada.

Enquanto prefeito, conseguiu fazer a cidade de Nova York avançar na área de tecnologia e reverter um prejuízo orçamentário de US$ 6 bilhões para um superávit de US$ 3 bilhões, profissionalizando a gestão. Também ajudou a potencializar a atividade econômica da cidade através do corte de impostos para comerciantes e proprietários de imóveis.

Bloomberg sempre fez questão de não receber salários, utilizar residência oficial ou qualquer tipo de benefício público. Ele recebia US$ 1 para ser prefeito e utilizava seu próprio transporte. Seu estilo foi imitado mundo afora, incluindo pelo ex-prefeito de São Paulo, João Dória.

Sob sua gestão, Nova York viu a quantidade de crimes cair e a infraestrutura de parques e transportes públicos melhorar, principalmente o metrô. No entanto, a gestão de Bloomberg é criticada porque foi em um período em que a desigualdade social na cidade aumentou. 

Qual a visão política de Michael Bloomberg?

Michael Bloomberg é liberal na economia, mas defende universalização da saúde e da educação, ambas públicas. Seu pensamento está alinhado com o Partido Democrata, pelo qual concorre como candidato nas eleições primárias. 

Bloomberg também defende o combate ao desequilíbrio climático, defende aborto, casamento homoafetivo, restrição do porte de armas e mais direitos sociais aos imigrantes. 

De certa forma, Bloomberg faz parte de um grupo que se encaixa como esquerda progressista americana, embora seja menos radical do que candidatos como Bernie Sanders, que concorre com ele pela vaga de representante dos Democratas na corrida presidencial dos Estados Unidos em 2020.

Se comparado a Trump, poderíamos dizer que Bloomberg tem mais sucesso como homem de negócios, se tornando um dos homens mais ricos do mundo. Além disso, ele é um dos maiores filantropistas dos Estados Unidos, tendo doado US$ 60 bilhões para caridade nos últimos anos.

Ele vai financiar sua campanha do próprio bolso e pode colocar até US$ 1 bilhão para participar da corrida presidencial, estratégia semelhante a de Trump em 2016. Será que isso vai ser o suficiente para conseguir derrotar Donald Trump? 

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