Lucas Bassotto

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Economista, trader e especialista em conteúdo sobre economia, finanças e criptomoedas.

Depois da turbulência de março e abril e a lenta recuperação em maio, o Ibovespa alcançou os 90 mil pontos. No entanto, há um misto de sentimento entre investidores: uns acreditam que a alta é precoce diante da recessão que a economia enfrentará e outros estão apostando na precificação dessa crise.

O dólar por outro lado vem caindo de forma consistente desde o dia 8 de maio, após quase tocar os R$ 6,00. O Real começa ganhar valor após atuações do Banco Central no mercado cambial, vendendo seus dólares para controlar a alta. Hoje (2 de junho) o Real está cotado a R$ 5,21, uma queda de 12,87% do topo.

Dólar (azul) vs Ibovespa (Amarelo)

O Banco Central tem o papel de garantir o poder de compra e a estabilidade da moeda. Ele exerceu sua função ao vender mais de US$ 560 milhões de suas reservas internacionais de dólares. O Brasil é um dos maiores credores de títulos de dívida dos Estados Unidos.

Banco Central já vendeu US$ 560 milhões

O gráfico abaixo está disponibilizado no site do Banco Central. Ele demonstra a variação das reservas internacionais brasileiras em moeda estrangeira, mais especificamente o dólar. O Brasil já chegou a ter quase US$ 390 bilhões em reservas de dólares, sendo a maior parte dela formada das commodities que o país exporta.

Variação das reservas internacionais brasileiras em dólar

reservas internacionais
Fonte: Banco Central

Especialmente depois de janeiro deste ano, o Banco Central começou a vender suas reservas rapidamente para conter a alta do dólar. O próprio Paulo Guedes admitiu que dólar a R$ 5,00 não seria tão ruim para o Brasil, e inclusive chamou os investidores para especular contra o Real.

A estratégia parece ter dado certo, pois o Real rapidamente perdeu valor, especialmente depois da pandemia da Covid-19. Vale lembrar também que as taxas de juros sofreram cortes, e os juros também são determinantes para o câmbio: se os juros caem rapidamente, a tendência é que o preço do dólar suba.

A taxa de juros no Brasil está 3,00% a.a.. Isso torna o país pouco atrativo para o investidor estrangeiro, que toma dinheiro emprestado no seu país e empresta para países com juros mais elevados. 

Entenda mais:

Diante do cenário de aversão ao risco com a queda das bolsas de valores no mundo, o dólar se tornou refúgio e os países emergentes viram suas moedas desvalorizarem frente ao Dólar e Euro. Quando somamos estes fatores, conseguimos explicar perfeitamente a alta do dólar. 

Mas agora, o cenário está invertendo. A bolsa está subindo e o dólar caindo. Qual é a explicação para isso? 

Por que a bolsa está subindo?

Quem especula em bolsa não olha para o presente, está sempre tentando olhar para o futuro. Os investidores estão tentando antecipar informações para saírem na frente dos outros e ganharem mais. Quando todos tentam fazer isso ao mesmo tempo, temos um mercado mais eficiente.

Entenda mais sobre isso:

Hoje estamos em uma pandemia, mas a situação dos Estados Unidos e da Europa aparentemente está sob controle. No mundo inteiro, tirando América do Sul, a Covid-19 parece ter superado seu pico. Com isso, as bolsas subiram forte, especialmente nos Estados Unidos.

Contudo, se haverá uma crise econômica, porque as bolsas estão subindo? Afinal, em uma crise econômica as pessoas consomem menos, as empresas perdem faturamento e lucro o que consequentemente representa uma piora nos números, que é o que os investidores querem saber no final das contas.

Uma explicação para esse movimento de alta é que os investidores acreditam que o pior já passou e estão confiantes de que já sabem a magnitude da recessão. Com isso, estão apostando em uma recuperação rápida, mesmo que haja uma piora nos fundamentos da empresa.

A situação do Brasil

No entanto, nem todos estão comprando essa ideia. Preocupações com uma segunda onda da pandemia frequentemente são levantadas por gestores de fundos e analistas de mercado. 

Uma segunda onda poderia aprofundar ainda mais a recessão econômica, o que tornaria as previsões mais imprecisas. Por outro lado, uma vacina poderia fazer as bolsas subirem de forma majestosa, em uma velocidade tão rápida quanto a queda. 

Hoje o mercado se resume em: pessoas que acreditam que a alta é uma armadilha e a recuperação será muito demorada vs pessoas que acreditam que sairá uma vacina e que o mercado está pessimista.

O ponto é que a bolsa brasileira está subindo e parece que há mais pessoas acreditando na alta. Por outro lado, os gestores esperam uma recessão de 6,25% para o ano de 2020. Há uma clara assimetria aí. O comércio em capitais importantes como RJ e SP vai reabrir em fases mesmo com a pandemia não controlada. Um efeito de segunda onda de infecção jogaria ainda mais para baixo?

Estamos de fato em uma situação bem diferente: a bolsa se recuperando mesmo com uma previsão desastrada do PIB. Uma das expectativas está errada. Apenas o tempo dirá quem se deu bem no final da história. 

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