Lucas Bassotto

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Economista, trader e especialista em conteúdo sobre economia, finanças e criptomoedas.

Joseph Schumpeter é um dos grandes economistas do século XX. Entre suas obras mais importantes estão: Ciclos Econômicos, Capitalismo, socialismo e democracia e Teoria do desenvolvimento econômico. Ele se caracterizou por ser um economista que defende a inovação como o motor do desenvolvimento capitalista.

De fato, quando olhamos para a história, vemos que a engenhosidade humana foi quem elevou a condição de vida tanto de trabalhadores quanto de capitalistas. Telefone, internet, carro, energia elétrica, inteligência artificial e muitas outras tecnologias “aceleraram” o curso da história.

As tecnologias criaram economias de escala e baratearam muitos produtos, tornando-os mais acessíveis à uma grande parte das classes sociais. A revolução industrial apagou da memória o que era viver no feudalismo: baixa mobilidade social e elevados índices de miséria. 

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O breve século XX

Tirando as duas grandes guerras, o século XX passou voando. Eric Hobsbawm, grande historiador, chama esse período de “O breve século XX” em seu livro Era dos Extremos. Novas potências emergiram, países saíram da miséria e uma miríade de novas tecnologias tomou sua forma, principalmente Rádio, TV e Internet.

Em meio a isso tudo, o poder dos Bancos Centrais de intervir na economia também foi crescendo progressivamente, assim como a capacidade do estado de intervir na economia em momentos de crise, mas as intervenções eram feitas mais no sentido de infraestrutura, construir pontes, ferrovias e rodovias quando as economias estavam em crise.

Essa política “contra-crise” evoluiu conforme os estados iam aumentando sua dívida. Agora a maior parte delas é feita através de manipulação na taxa de juros, taxa de compulsório (reserva mínima que os bancos centrais precisam ter imobilizado) e crédito para estimular a economia.

Foi assim que o FED (Banco Central dos EUA) e o ECB (Banco Central Europeu) conseguiram conter uma das maiores crises da história, no ano de 2008. Cortaram taxas de juros, injetaram dinheiro na economia e compraram ativos financeiros. Isso abriu um novo paradigma na história: quem se importa com a taxa de juros

A estabilidade destrutiva

Juros baixos significam dinheiro barato, porque fica mais fácil para o empresário abrir projetos de longo prazo e aumentar o capital de giro. O problema é que muitas empresas “insustentáveis” também se beneficiaram disso. A estabilização proporcionada pelos bancos centrais criou o capitalismo de livre estado.

O dinheiro jorrando na economia respingou também no mercado de ações. Hoje, os Bancos Centrais praticamente sequestraram o mercado financeiro. Afinal, é possível competir com uma bazuca que pode criar trilhões de dólares do dia para a noite? Não, isso não é possível. 

Schumpeter advogava pela “destruição criativa”, quando o status quo é abalado por inovações que destroem a “ordem vigente” e que criam riqueza e novas formas de produção, que por sua vez promovem desenvolvimento econômico. Ela ainda existe, mas em uma escala bem menor do que poderia estar acontecendo.

Hoje, a destruição criativa está sendo gradativamente substituída estabilização destrutiva, onde empresas são praticamente impedidas de quebrar (em condições normais – sem Covid-19), porque o capital está barato e fica mais fácil “rolar a dívida” para o futuro. 

O mercado é um corpo antifrágil, mas para que ele mantenha essa característica é preciso que todos os seus componentes sejam frágeis. Em um ambiente de fragilidade, os indivíduos aprendem com o erro dos outros. Nassim Taleb diz que “o que mata fortalece”, e é justamente a lógica. 

Os indivíduos olham os erros cometidos por outros indivíduos, aprendem e inovam. Pelo menos era assim até o FED injetar trilhões na economia dos EUA.

Empresas zumbis e fraudulentas

Todas essas ideias parecem baboseiras sem tamanho quando o FED joga uma bomba de liquidez na economia. Tudo o que a empresa precisa fazer é tomar dinheiro emprestado e seguir a vida. 

O Fed aumentou seu balanço em US$ 4,5 trilhões apenas no mês passado, e o Tesouro dos EUA tem ajudado as empresas por meio de um pacote de alívio de US$ 2,3 trilhões, aprovado pelo Congresso. E assim chegamos nas empresas “zumbis”.

A Hertz era uma bomba-relógio – com mais de US$ 14 bilhões em dívidas securitizadas e lutando para competir com empresas como Uber e outros serviços de carona -, mas a empresa de carros “zumbis” sobreviveu na era do dinheiro barato, emitindo novas dívidas para pagar passivos existentes a taxas de juros zero.

Essa prática permitiu à Hertz – e outras empresas de zumbis – sobreviver por muito mais tempo do que as regras do capitalismo normalmente permitiam. Isso foi até o COVID-19 travar a economia global, destruindo toda a receita da Hertz, forçando a empresa a declarar falência a partir de então.

No entanto, desde a falência, o preço das ações da Hertz subiu para níveis mais altos do que antes do anúncio da falência. Como isso pôde acontecer? Por que as ações não estão próximas de zero?

Fora o aumento no número de fraudes. A Wirecard fraudou mais de 1,9 bilhão de Euros e suas ações colapsaram do dia para a noite. Depois de chegar ao fundo do poço, suas ações já subiram 70%. 

Veja o caso da Luckin Coffee. A empresa admitiu que era uma fraude no dia 2 de abril, mas desde então seu preço das ações subiu 400%. Como uma empresa pode se expor como uma fraude e ainda ter um valor de mercado de US$ 1 bilhão? Somente em um mercado com sucos. Quem compraria essas ações? E é aí que chegamos nos Zoomers.

Zoomers vs o Lobo de Wall Street

Para uma ação subir, precisa-se de um comprador, certo? Mas quem compraria essas ações? E é aí que chegamos em um novo participante do mercado. O zoomer especulador na Robinhood, uma plataforma de trading que conquistou o público gamer e ajudou a transformar parte do mercado financeiro em “jogatina”.

Zoomer é uma espécie de meme que tira sarro da “geração Z”, geração da tecnologia, dos smartphones, da internet rápida, games, lives, energético Monster de diferentes sabores e podcasts, sendo uma espécie de antítese dos “Boomers”, geração nascida entre os anos 50 e 70.

Enquanto muitos gestores literalmente estavam “passando calor” no mercado de ações, os Zoomers estão usando o “Cheque de Estímulo” (Auxílio Emergencial dos norte-americanos) para comprar ações de empresas fraudulentas. 

Estudar investimentos? Seguir Warren Buffett? Escolher empresas defensivas para o longo prazo? Não, muito entediante e trabalhoso, é melhor operar alavancado na Robinhood e ganhar 400%, 500%.

Mas existe o lado negligenciado na história, que existe quando a coisa não vai na direção desejada. No mês de junho, um trader de 20 anos se matou após ficar devendo centenas de milhares de dólares na Robinhood. 

E é assim que chegamos no capitalismo de livre estado, a estabilização destrutiva e nos Zoomers especuladores da Robinhood. Os Bancos Centrais enlouqueceram os mercados, tornando-os praticamente um live meme. Vamos acompanhando para ver quem se deu bem no final da história.

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