Lucas Bassotto

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Economista, trader e especialista em conteúdo sobre economia, finanças e criptomoedas.

Texto escrito em janeiro de 2018, publicado no Linkedin. Revisado em 2020.

Para fins de facilitar a compreensão deste artigo e a exposição do modelo, devemos adotar as seguintes premissas: 

  • A principal moeda da economia é Bitcoin; 
  • As moedas fiduciárias apresentaram uma constante desvalorização até não ser mais possível precificar estas moedas em termos de Bitcoin; 
  • O mercado está sob concorrência perfeita; 
  • Os custos de transação são próximos de zero; 
  • Só há Bitcoin como moeda na Economia.

Atualmente há muitos desafios que cercam o Bitcoin, tais como: preço elevado das taxas de transação, falta de aceitação, interface difícil a novos usuários e muita volatilidade, o que faz com que muitas pessoas desconfiem da viabilidade de negócios adotarem Bitcoin como meio de pagamento. No entanto, é um fato de que o Bitcoin tem apenas 10 anos de existência e as pessoas ainda estão aprendendo qual é o seu real valor.

Ao observar as revoluções na indústria ao longo da história, percebe-se que existem inovações complementares, que vêm apenas para complementar o processo produtivo que já é praticado e as inovações disruptivas, que em um curto espaço de tempo substituem o processo produtivo vigente. 

Quando observamos o Bitcoin, percebe-se que se trata de um ativo que pode trazer um cenário jamais visto na história da humanidade: escassez digital, uma moeda descentralizada e não inflacionária, e além disso, é tecnologia distribuída em uma rede mundial de computadores que trabalham sob o princípio da confiança para obter incentivos.

Quando não existe uma terceira parte para mediar transações, os custos das mesmas tendem a cair por conta da exclusão de uma parte mediadora para realizar as transações, o que faz com que o valor mínimo de transação tenda a não existir, diminuindo bastante o preço das transações, já que agora existe uma rede de computadores que verifica as transações, o que faz com que as partes não precisem se conhecer, diminuindo toda a burocracia.

A parte dos custos transacionais ainda é um problema. No entanto, esse obstáculo com toda certeza será resolvido no longo prazo com tecnologias que vão funcionar acima da camada principal do blockchain do Bitcoin, oferecendo transações privadas, rápidas e baratas.

O propósito deste artigo é estudar a viabilidade de uma economia baseada em Bitcoin, entender como as pessoas transacionam, empreendem e realizam cálculos econômicos apenas nesta moeda. 

Mas antes disso, iremos estudar os principais obstáculos e suas possíveis soluções e mostrar as principais vantagens de uma economia que possui uma moeda descentralizada, não inflacionária e confiável como o Bitcoin.

Preço elevado das taxas de transação

Atualmente a demanda pelo Bitcoin cresceu de forma exponencial, fazendo com que o seu preço também crescesse de forma acelerada, o que é o resultado de uma moeda que possui uma oferta limitada no curto prazo. 

Além disso, o número de transações, que competem através das taxas para serem confirmadas próximo bloco (10 minutos), também aumentou, o que gera preocupações em relação a sua viabilidade.

Como exemplo, o Bitcoin em sua presente estrutura comporta o número de 7 transações por segundo, o que é irrisório quando se compara ao VISA, que chega a comportar mais de 1000 transações por segundo. 

Quando se tem muitas transações competindo para serem inseridas em um bloco de 1MB, o preço das taxas aumenta exponencialmente, o que faz surgir uma fila de centenas de milhares de transações esperando por uma confirmação na rede. Desta forma, a rede fica cara e lenta, tornando praticamente inviável a sua adoção para negócios.

Além disso, o código do Bitcoin só pode ser modificado através de consenso na comunidade (programadores, mineradores e nós) e a modificação (BIP) deve ser feita da melhor forma possível, para que mantenha a integridade do código e a segurança.

Isso faz com que, felizmente, demore para surgir uma nova solução, porém, isso ressalta a confiabilidade da moeda, pois nenhuma modificação é feita sem prévio estudo, avaliação do seu impacto e sem o consenso da comunidade.

Hoje há um grande time de programadores competentes que trabalham no código da criptomoeda. Além disso, há soluções sendo desenvolvidas em conjunto com a comunidade. Principalmente a Lightning Network (aumenta o potencial para 1.000.000 de transações por segundo), que abre um canal de negociação entre os pares que querem transacionar. 

Portanto, as transações se dão fora do Blockchain e há vários testes realizados na Lightning Network que mostram pessoas transacionando pequenas unidades de satoshis (unidade monetária de bitcoin), pagando uma taxa irrisória em termos gerais. 

Isso faz com que a maioria das pequenas transações saiam da rede principal e passem para os canais da Lightning Network, desta forma, faz com que apenas transações de alto volume que precisem de bastante confiança passem para a Blockchain, desafogando a rede principal.

Existem também outras soluções que não são consenso entre os membros da rede, tal como o aumento do tamanho do bloco, o que faria a Blockchain comportar mais transações por segundo e o preço das taxas de transações caírem. 

Entretanto, isso provocaria um aumento do tamanho do registro das transações, o que tornaria necessário um aumento de custo para se manter a rede funcionando, centralizando-a em empresas que têm capital para comprar a estrutura computacional para armazenar a Blockchain, que se tornaria maior conforme o seu uso, isso centralizaria a rede nas mãos de grandes empresas, segundo os críticos deste problema.

A escalabilidade do Bitcoin não é o seu maior problema, visto que existem soluções que já podem ser adotadas como presente (Lightning Network), ainda existem soluções que estão sendo trabalhadas para o longo prazo, que efetivamente resolvem o problema das transações sem que comprometa os princípios do Bitcoin: descentralização e a confiança entre os membros da rede.

Falta de aceitação e interface difícil a novos usuários

Grande parte da população não conhece o Bitcoin e tão pouco entende o seu funcionamento, o que dificulta as empresas de adotarem a moeda como um meio de pagamento efetivo. Além disso, o funcionamento e o uso do Bitcoin parecem complexos para uma pessoa que não está acostumada a lidar com tecnologia no dia a dia. 

Se as pessoas não usam a criptomoeda, não há demanda por Bitcoin nos estabelecimentos e se não há demanda, não faz sentido aceitar a moeda sem ter clientes para negociar.

Além disso, a falta de aceitação está atrelada a fatores internos, tais como o elevado custo de transação de pequenos valores no presente, falta de confiança e compreensão pela maior parte da população em um ativo tão único e diferente do que já presenciamos.

No entanto, a solução para este problema se dará através da educação. As empresas que lidam com esta tecnologia devem focar na parte educacional para que a população aprenda as funções, funcionamento, uso e armazenamento do Bitcoin. 

Outro ponto é que a população atual terá filhos que se tornarão mais familiarizados com tecnologias, o que torna a curva de aprendizado praticamente exponencial. Se a população de hoje não vai utilizar Bitcoin, seus filhos e netos usarão com toda certeza.

Em relação a dificuldades na interface, tais como a leitura de um Block Explorer, dificuldades com o uso da carteira e outros serviços, cada vez mais as empresas estão focando na Experiência do Cliente quando prestam os seus serviços e isso muda o cenário quando falamos de dificuldades no uso.

Porque as empresas que prestam serviços de Wallet, armazenamento, leitura de blocos, investimentos e outros, estão focadas em fornecer uma interface limpa e fácil de compreender para novos usuários. Tornando de fato mais fácil usar Bitcoin.

Em suma, as dificuldades no uso da interface já estão sendo solucionadas de forma rápida por empresas e desenvolvedores que focam na Experiência do Cliente e estão comprometidos em melhorar a usabilidade dos serviços.

Volatilidade

O problema da volatilidade surge quando é considerado o fato de que o Bitcoin ainda é negociado no par Moeda Fiduciária – Bitcoin. Como as pessoas estão ainda aprendendo o seu real valor, o preço irá oscilar até que se chegue a uma conclusão através das interações de Oferta x Demanda.

Há casos em que o Bitcoin apresenta uma oscilação diária no preço de até 45% para mais ou para menos, o que torna difícil a sua adoção para estabelecimentos, pois o poder de compra da moeda é alterado de minuto em minuto, fazendo com que a economia pareça que esteja em hiperinflação ou deflação acelerada.

No entanto, o preço das moedas fiduciárias em termos de Bitcoin vêm caindo de forma acelerada com o passar dos últimos anos, em função disso, é perfeitamente imaginável o cenário de que a moeda fiduciária está sendo gradativamente substituída pela criptomoeda, pois a perda do poder de compra e as tensões sociais tenderão a minar a confiança das pessoas na moeda fiduciária.

A moeda fiduciária tem a característica de não possuir lastro, nenhuma escassez, o que a deixa com um potencial extremamente inflacionário, e o fato dela ser centralizada, com o seu uso forçado e monopólio de emissão garantidos pela lei, faz com que ela seja de fato mais utilizada hoje pela população. 

Por outro lado, Bitcoin é uma antítese de todas essas características, uma vez que ele possui lastro baseado nas leis matemáticas que criam as lógicas de código que garantem a escassez extrema e sua característica de ativo não inflacionário, descentralizado. Além disso, seu uso e criação podem ser escolhidos por qualquer pessoa opte por isso.

Com a queda do dinheiro fiduciário, as pessoas deverão puramente precificar seus ativos em termos de Bitcoin, sendo o preço expresso em termos de Satoshis (unidade monetária do Bitcoin), com este preço variando de acordo com as interações reais de oferta e demanda dentro da economia.

Em uma economia baseada em Bitcoin, não haveria inflação, pois o Bitcoin é limitado a 21 milhões de unidades e os preços seriam alterados conforme a necessidade do mercado e não reajustados mês a mês por conta da inflação. 

Isso facilitaria a contabilização de custos, receitas e lucros, fazendo com que os balanços das empresas sejam legítimos com o passar do tempo, já que os balanços não deverão ser reajustados com a inflação e os empreendedores saibam de fato o quanto estão lucrando.

Isso torna o mercado mais racional em termos de oferta, uma vez que os empreendedores sabem o quanto realmente estão gastando e lucrando, fazendo com que os projetos se tornem mais racionais e menos dispendiosos de recursos.

Um sistema econômico mais racional

Antes de se estudar sobre Bitcoin, é imprescindível estudar o contexto de seu surgimento. No auge da crise financeira de 2008, os bancos centrais das economias mais ricas do mundo (Europeus e Americanos), passaram a realizar o uso do Quantitative Easing (afrouxamento quantitativo), que consistia na emissão extrema de moeda para comprar ativos tóxicos de bancos importantes para a economia, reduzindo o passivo destes bancos e evitando sua falência, o que pode ser resumido como resgate aos bancos.

Tal evento expôs as falhas do modelo econômico mundial praticado até hoje, um modelo que tem os pilares de centralização, cartelização dos grandes bancos e irracionalidade econômica. Muitas pessoas perderam quase tudo o que tinham nos bancos, o que fez surgir o questionamento que indagava se as pessoas eram de fato donas do seu dinheiro e riqueza.

O Bitcoin propõe uma solução oposta ao modelo econômico atual, uma solução em que as pessoas possuem não mais a independência financeira e sim a liberdade financeira. 

O conceito de liberdade financeira consiste no fato de que as pessoas são livres para gerenciar o seu dinheiro como elas de fato desejam, sem depender de grandes instituições como bancos e governos. O Bitcoin possibilita que as pessoas sejam de fato as donas de sua riqueza, pois é um sistema monetário confiável, descentralizado, não inflacionário e racional.

A inflação é um mal que corrói a estrutura econômica silenciosamente com o passar do tempo. Ela pode ser caracterizada como um aumento da oferta de moeda na economia, com a quantidade de bens e produtividades de setores mantidos constantes. O seu resultado é um aumento de preços generalizado e contínuo, uma vez que a produtividade e a quantidade de bens também não foram aumentadas conforme o aumento da oferta. 

Ao contrário do que muitos pensam, a entrada de novo dinheiro na economia não se dá de forma linear, isto é, há pessoas que recebem o novo dinheiro antes e há pessoas que recebem este dinheiro por último. 

Isso aumenta o poder de compra de quem o recebe primeiro (Bancos, Funcionários Públicos e Fornecedoras de serviço para o estado) em relação ao poder de compra de quem recebe por último (normalmente a população mais pobre e distante dos grandes centros financeiros).

Pode-se dizer que inflação não ocorre como é descrita na Teoria Quantitativa da Moeda, pois, na verdade, ela se dá por ondas, como uma gota que pinga em uma piscina, gerando ondas com maior raio com passar do tempo, passando por quem recebeu o dinheiro primeiro, até o último. 

O que possibilita a criação de dinheiro é o monopólio de emissão por parte dos bancos centrais e o sistema de reserva fracionária praticadas por bancos.

Além disso, a inflação é um caminho para a irracionalidade econômica, fazendo com que os agentes econômicos passem a valorizar os bens presentes em prol dos bens futuros, aumentando a preferência temporal (adiantando o consumo presente em prol da poupança) de toda a economia, resultando em uma taxa de juros mais alta no presente. 

No entanto, o Banco Central pode manter a taxa de juros artificialmente baixa para estimular o consumo e, além disso, comprar ativos no mercado financeiro, evitando que esse dinheiro chegue à economia real. Isso piora ainda mais a geração de poupança e cria uma sociedade consumista e sem perspectivas de longo prazo.

As pessoas em uma economia inflacionária tendem a poupar menos, pois há a expectativa de que os preços no futuro irão aumentar, ou que a recompensa (juros por poupar) será extremamente baixa por se abster do consumo no presente ao invés de consumir mais no futuro.

Uma alta preferência temporal leva a uma menor poupança, o que faz com que a taxa de juros seja alta, e que as empresas invistam menos em processos produtivos mais complexos e linhas de produção mais longas, que possibilitam um aumento da produtividade. Reduzindo assim, a oferta de bens tanto no presente, quanto no futuro, ficando a economia estagnada sem inovações tecnológicas e produtivas.

O governo pode baixar as taxas de juro através da legislação, fazendo com que o investimento fique mais barato, dessa forma, os empresários acham que há mais fundos sendo poupados no presente. Os empresários passam a alongar a linha de produção e a adotar meios de produção mais complexos, que irão aumentar a quantidade de bens no futuro. Os projetos passam a visar o longo prazo, em função da baixa taxa de juros, uma vez que eles consideram que preferência temporal da população está baixa.

O problema é que acontece um descompasso entre oferta e demanda de bens, pois os empresários estão pensando em longo prazo, enquanto os consumidores estão pensando no curto prazo, porque agora a recompensa para poupança ficou menor e o custo dos empréstimos também apresentaram uma queda. 

O consumidor, portanto, continuará consumindo o que ele sempre esteve habituado. E o que ocorre é que quando os consumidores forem ao mercado, o descompasso será evidente e toda aquela cadeia de produção complexa se mostrará um desperdício de capital, uma vez que há maior demanda por bens presentes e não por bens futuros.

Todo aquele investimento se mostrará como irracional e as empresas precisarão demitir funcionários e liquidar os seus ativos obtidos com crédito, este processo acaba por falindo uma indústria por inteiro de empresas que empregavam milhões de pessoas. Com uma diminuição da demanda, a economia entra em recessão até retornar ao normal, o que pode demorar, dependendo da quantidade de tempo que a política de juros baixos esteve vigente.

Este padrão aconteceu em 1929, se repetiu em 2008. O ponto central é que o governo através da emissão de moeda ou manipulação da taxa de juros, pode induzir as pessoas ao erro sistematizado ao longo de toda economia, provocando um certo período de abundância, conhecido como “boom” e um período de depressão, conhecido como “burst”.

Leia também: Crises econômicas, como acontecem?

O Bitcoin ajuda a impedir este cenário de catástrofe econômica. Uma vez que é impossível uma entidade controlar a sua oferta monetária, a mesma é limitada, desta forma, não há inflação em um sistema econômico baseado em Bitcoin. 

E em uma sociedade onde não há inflação faz com que as pessoas sejam mais responsáveis no consumo, uma vez que a moeda poderá valer mais no futuro. Ou seja, as pessoas irão experimentar uma diminuição de sua preferência temporal, fazendo com que se tornem mais poupadores, uma vez que eles irão preferir os bens futuros por serem mais baratos.

Um maior volume de poupança possibilitado pela baixa preferência temporal resulta em uma menor taxa de juros. O que faz com que os empresários percebam os sinais legítimos da economia e aumentem a complexidade da cadeia de produção de suas empresas. 

A produtividade irá aumentar, as empresas investirão em mais tecnologia e a quantidade de bens futuros irá aumentar, o que tornará o país mais rico e próspero com o passar do tempo. Uma vez que os agentes econômicos visam o longo prazo, e que os sinais que estes emitem são mais exatos.

A economia passaria por diversos choques e instabilidades, pois o ser humano não é perfeito e comete erros. Mas esses erros seriam rapidamente corrigidos e evitados no futuro. No sistema atual, cometer erros é proibido, pois há um grande discurso em defesa da “estabilização econômica” que gera mais distorções ainda no longo prazo.

Um sistema mais racional

Neste artigo foram demonstradas as dificuldades em relação à implantação do Bitcoin nos negócios, foram mostradas também as soluções para as dificuldades e que muitas já estão em implementação. 

Além disso, contatou-se que o Bitcoin será viável em uma economia apenas quando os problemas expostos neste trabalho forem resolvidos e ele seja a moeda dominante no arranjo econômico. As pessoas precisariam precificar os seus bens em termos de Bitcoin unicamente, excluindo o câmbio entre moedas fiduciárias e Bitcoin, pois este câmbio provoca muita volatilidade nos preços.

Além disso, foi demonstrado como o Bitcoin pode possibilitar uma economia mais racional, evitar grandes recessões e crises financeiras que aconteceram ao longo da humanidade. Devemos tratar a criptomoeda com cuidado, pois é um ativo novo e que está em constantes mudanças, no entanto, é preciso ter a compreensão de que o Bitcoin pode mudar permanentemente a economia como conhecemos hoje.

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