Lucas Bassotto

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Economista, trader e especialista em conteúdo sobre economia, finanças e criptomoedas.

A Xiaomi é uma fabricante de produtos eletrônicos com sede em Pequim, na China. Ela fabrica principalmente smartphones e computadores, embora tenha produtos no mercado de televisão, patinetes elétricos e dispositivos inteligentes.

Recentemente, saiu uma notícia de que a Xiaomi se tornou a 4ª maior fabricante de smartphones no mundo. Ou seja, os telefones chineses, que já foram alvo de chacota, passaram a dominar a preferência de consumidores ao redor do mundo.

o crescimento da xiaomi
Fonte: Globalstats

O fato é que hoje estamos diante de uma guerra de gigantes por espaço no mercado consumidor. Samsung, Apple, Motorola, Apple, LG, Huawei, HTC e Xiaomi estão travando uma batalha cada vez mais agressiva para aumentar sua fatia de mercado.

No entanto, é errado olhar para isso só pela ótica de busca de espaço em um determinado mercado. Essa “guerra” vai muito além de tecnologia, passa por política e economia.

Jogo de interesses

Nenhuma empresa cresce e ganha espaço de forma repentina. A Xiaomi cresceu sob um contexto no qual o governo chinês pretendia se tornar competitivo tecnologicamente comparado às potências ocidentais. Afinal, o mercado interno da China é gigantesco, são pelo menos 1 bilhão de potenciais consumidores.

A China é a principal produtora de chips e componentes eletrônicos do mundo. Samsung e Apple utilizavam a barata mão de obra chinesa para manufaturar seus celulares. Até o começo da década, a Apple dominava o mercado chinês de smartphones com o seu iPhone. Em 2013, Xiaomi e Huawei já representavam 84% do mercado interno.

O governo Chinês logo percebeu que seria interessante investir na manufatura de telefones por empresas que seriam verdadeiramente chinesas. Além disso, o país poderia se tornar um grande competidor no crescente mercado de smartphones.

A China gosta de desafiar o ocidente em termos de tecnologia e comunicação. Com smartphones não seria diferente. Para isso, tratou de procurar fabricantes nacionais e oferecer generosos subsídios. Tudo isso fez parte do projeto “Made in China 2025”. A Huawei e Xiaomi foram as principais beneficiárias.

Subsídio é a ajuda financeira que o governo oferece para um determinado setor de interesse. Existem várias maneiras de se subsidiar um setor: injetar dinheiro, taxas de juros mais baixas para empresas de determinado setor e impostos menores.

A estratégia parece ter funcionado, porque Xiaomi e Huawei rapidamente se tornaram as maiores fabricantes e vendedoras de smartphone do mundo. O gráfico abaixo mostra que a Xiaomi como a quarta maior fabricante do mundo, atrás de Samsung, Apple e Huawei.

A ascensão da Xiaomi

É importante ressaltar que apenas subsídios não são suficientes para explicar o crescimento da Xiaomi. É preciso competência e inovação para se tornar uma empresa bem sucedida e extremamente competitiva em diferentes mercados.

A Xiaomi também conseguiu fazer seu dever de casa: produziu smartphones baratos com uma boa qualidade. Isso atraiu principalmente consumidores de países em desenvolvimento, como Índia e Brasil, além do próprio mercado chinês. 

Ela lançou seu primeiro Smartphone em 2011, o Xiaomi MI 1, que tinha uma configuração competitiva para a época e custava apenas US$ 18. A empresa chinesa conseguiu vender 300 mil aparelhos nas primeiras 34h da pré-venda.

xiaomi mi 1
Mi 1, o primeiro smartphone da Xiaomi.

Com o sucesso, lançou o Xiaomi MI 2 em 2012. Seu novo smartphone se mostrava um produto de qualidade, sendo não apenas um telefone barato, mas uma opção confiável para quem buscava mais luxo. Esse smartphone foi o divisor de águas da empresa. Através dele, a Xiaomi conseguiu conquistar a confiança do mercado chinês.

A empresa continuou crescendo na China, principalmente depois da contratação do brasileiro Hugo Barra junto ao Google em 2013. Também no mesmo ano, foi lançada uma nova linha de smartphones, o Redmi, que se tornou popular em diversos países e ajudou a empresa a figurar na terceira maior fabricante de smartphones do mundo.

A Xiaomi chegou a se lançar no mercado brasileiro de smartphones. A ideia era competir com smartphones de entrada e intermediários, como o Moto G. No entanto, o corte do subsídio do governo chinês em 2016 foi um golpe duro para a empresa. A passagem da Xiaomi pelo Brasil não demorou muito, se encerrando em 2017.

Desde então, a Xiaomi passou a ter queda nas vendas e ficou de fora do TOP 5 em vendas  mundiais de smartphone. Contudo, a empresa passou a focar na produção de outros dispositivos como purificador de ar (o mais usado da China), TVs e computadores.

Política de preços agressiva

Em 2018, a Xiaomi limitou a margem de lucro com venda de smartphones a 5%. A estratégia foi a de oferecer smartphones a um preço muito agressivo e competitivo, tentando alcançar o maior número de mercados possível.

Além da expansão, o movimento também mostrou que a Xiaomi pretende faturar com a venda de serviços dentro do próprio smartphone. Curiosamente, a tendência de prestar atenção para os serviços têm sido uma constante em diferentes empresas.

Ainda no final do ano passado, a Apple lançou seu Apple Card. Também é possível ver Google, Uber e Facebook voltando suas atenções para o setor de serviços. Se você quiser mais, confira o artigo: Por que todo mundo quer se tornar um WeChat?.

Ao mesmo tempo, foi possível ver um crescimento nas exportações da Xiaomi em 2018. Muitos brasileiros também passaram a importar telefones da chinesa por sites de importação como Dealextreme, Aliexpress e Gearbox. De forma orgânica, foi criada uma grande comunidade da Xiaomi no Brasil.

A demanda foi tão alta que a Xiaomi percebeu o elevado potencial do mercado de smartphones no Brasil. A empresa voltou para o país e inaugurou suas primeiras lojas físicas.

Essa movimentação também ajudou a expandir o ecommerce chinês. Os celulares fazem compõem desse mercado na China, que compete com a Amazon através do gigante Alibaba. Só em 2019, a venda no ecommerce cresceu 27% e os chineses já movimentam quase US$ 2 trilhões em compras virtuais

A guerra fria do século 21

Retomando o que foi dito acima, tanto a Huawei, quanto a Xiaomi, fazem parte de um ambicioso projeto do governo chinês para dominar a tecnologia da informação na próxima década. A China quer deixar para trás a fama de fabricante de sapatos e bugigangas baratas.

Para isso, o governo chinês está injetando centenas de bilhões em seu plano “Made in China 2025″, que visa tornar a China uma líder global em setores como robótica, carros elétricos e chips de computador. A introdução da tecnologia sem fio 5G, que depende da Huawei, é uma das principais prioridades.

O governo americano, especialmente Donald Trump, deixou claro que irá fazer o possível para empurrar de volta o crescimento chinês. Isso pode ser visto com a guerra comercial. O desafio para os chineses será de conter a pressão internacional. Afinal, nenhum país quer ficar atrás do desenvolvimento.

Hoje, a Xiaomi busca expandir seus mercados para alcançar as gigantes Apple e Samsung, que parecem não querer abdicar de suas generosas fatias de mercado. No entanto, a economia chinesa segue em expansão, com aumento de renda para os trabalhadores. O mercado da China fica cada vez mais exigente. Será que a Xiaomi conseguirá superar as duas gigantes? 

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