Lucas Bassotto

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Economista, trader e especialista em conteúdo sobre economia, finanças e criptomoedas.

Jair Bolsonaro viu sua popularidade subir nas últimas pesquisas, coincidentemente a alta acontece desde a criação e distribuição de um dos maiores programas de transferência de renda em toda história do Brasil. 

O Auxílio Emergencial, criado para atenuar os efeitos econômicos da pandemia, não saiu barato: R$ 254 bilhões, mais de ¼ do que se pretendia economizar com a reforma da previdência. Além disso, o governo viu sua situação fiscal piorar nos últimos meses.

Aliás, a pandemia fez o plano de responsabilidade fiscal do governo, que começou em 2016 com Michel Temer, entrar em uma situação complicada. Qual presidente vai querer cortar gastos e tirar verba de várias áreas do governo em plena época de pandemia? Bolsonaro e sua equipe econômica apostaram no oposto.

Os números de popularidade subindo e a rápida “recuperação” trouxeram um alento, mas a um preço muito alto. O governo está apostando alto na aprovação de um novo imposto nos mesmos moldes da CPMF, mas Rodrigo Maia não aparenta tanta vontade de aprovar. Inclusive, a própria Reforma Tributária já virou uma novela.

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Mas o que gerou preocupação foi o anúncio do Renda Cidadã, mas não pelo programa em si, e sim de onde virão os recursos para tal: da rolagem de precatórios e do Fundeb. Na prática, o governo não vai cortar gastos de outras áreas, mas vai praticamente dar uma “pedalada” no pagamento dos precatórios.

Ainda há muito receio quanto a viabilidade jurídica de retirar parte dos recursos quanto ao pagamento de precatórios, mas esta é a aposta do governo, em uma criatividade contábil para financiar um grande programa de transferência de renda. Tirando nomes da matéria, uma pessoa mais desavisada poderia até confundir a atitude com a de governos anteriores.

Bolsonaro, ao menos até o momento, sinaliza que vai apostar no populismo econômico para chegar forte em 2022, enquanto Paulo Guedes vai perdendo tamanho no governo (vale lembrar que sua pasta vem sendo esvaziada nos últimos meses). 

Essa “guinada” ao populismo não agradou o mercado financeiro e investidores estrangeiros, que preferem uma agenda de reformas para crescimento mais sustentável a longo prazo.

Mercado financeiro não digeriu bem

O caminho de recuperação econômica do Brasil passa por reformas eficientes e responsabilidade fiscal, sendo o respeito ao teto de gastos uma prioridade. Sem cuidado fiscal não há inflação controlada, moeda brasileira valorizada e juros baixos. 

O mercado interpretou que o governo não está zelando pela questão fiscal como deveria, além de estar atrasando a agenda de reformas necessárias para crescimento econômico sustentável a longo prazo.

Vale lembrar que o Brasil perdeu bastante atratividade para investimentos estrangeiros nos últimos anos, sendo substituído por outros países emergentes como México e África do Sul.

No auge da pandemia em países europeus (entre Março e Abril), o grau de incerteza subiu no mundo inteiro, e isso pode ser observado quando olhamos para juros longos do Brasil, um dos principais indicadores de incerteza. Apesar do declínio que persistia desde maio, a curva voltou a subir, mas desta vez muito mais pelo fator Brasília.

Juros de longo prazo no Brasil

Juros futuros brasil
Curva de juros longa com vencimento em 2025. Fonte: TradingView

O DI Futuro (juros futuros) com vencimento em 2025 operam em alta de 6,27% no último pregão. Quanto maior a taxa de juros para o futuro, maior o grau de incerteza envolvido na economia do país em questão.

O Ibovespa, índice de ações no brasil, reagiu mal ao Renda Cidadã e opera em baixa de 2,33%, nos 94840 pontos. A bolsa brasileira segue na contramão do que é observado nas bolsas estrangeiras, principalmente na americana. Por outro lado, o dólar voltou a subir, operando em alta de 1,36%, chegando aos R$ 5,63.

Se Bolsonaro continuar neste ritmo, a aposta será bem cara, ao menos quando olhamos para os resultados recentes. A história sempre ensinou que não há atalhos ou “milagres econômicos”, porque uma a hora a conta chega. 

Contudo, é preciso ver até onde vai este ímpeto por manter a popularidade. Se a inflação voltar a explodir junto com o dólar e juros, haverá pressão para que ele volte atrás, mas a um custo político gigantesco. Não seria um exagero afirmar que já começou a corrida eleitoral para 2022, e Bolsonaro quer largar na frente.

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